quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

A essência do Antigo Testamento




O Antigo Testamento é uma compilação de 39 livros que contam a história de Deus. É a história do amor que Ele tem por Seu povo - não apenas o povo escolhido de Israel, mas todos os povos do mundo. Nas páginas desses livros incríveis, encontra-se uma profusão de seres humanos: patriarcas, reis, rainhas, sacerdotes, comerciantes, agricultores, guerreiros, mulheres, crianças, prostitutas, santos e pecadores, piedosos e ímpios.
Eles estão todos lá, e cada um desempenha um papel importante na história de Deus. Alec Motyer diz que eles são "maiores do que a própria vida, mas, ao mesmo tempo, intensamente humanos; pertencentes a um passado distante, mas apesar disso, retratados com tanta vivacidade e aplicabilidade" que suas histórias ganham vida, e eles tornam-se como pessoas de hoje em dia.
O que surpreende no Antigo Testamento é a realidade extrema das histórias. Não se trata de uma coleção de mitos dissimulados que escondem os defeitos dos heróis. Em vez disso, os homens e as mulheres do Antigo Testamento são retratados como realmente eram, sem reservas.
"Em suas páginas, encontramos histórias arrebatadoras de amor e ódio, narrativas horripilantes de estrupo e desmembramento, relatos francos e tráfico de escravos e também contos reais de grandes honrarias e cruéis traições de guerra"(Philip Yancey).
Se você não estiver familiarizado com o conteúdo desses 39 livros, prepare-se para uma das leituras mais emocionantes, desafiadoras e inquietantes de toda a sua vida. O drama humano em torno da grande história de amor de Deus desafiará sua fé, impactará sua mente e abençoará sua alma. As narrativas pessoais, as histórias nacionais, as poesias repletas de paixão e as profecias entrelaçam-se para tecer a trama do Antigo Testamento. A proposição primária da Bíblia hebraica é a história de pessoas que "foram conduzidas, admoestadas e, por fim, salvas pelo poder de um só Deus, o qual é o Criador do universo e um Ser intensamente dedicado à justiça moral e social" (Jean-Pierre).
A MENSAGEM BÍBLICA
Não é possível compreender adequadamente o Novo Testamento sem considerar o Antigo Testamento. Isso se deve ao fato de as Escrituras hebraicas terem sido a Bíblia dos cristãos primitivos. Quando Deus operou por intermédio dos autores dos Evangelhos, de Atos, das Cartas e do Apocalipse, estes escreveram supondo que os os leitores estavam familiarizados com o Antigo Testamento. Conceitos e termos que aparecem ao longo das Escrituras do Novo Testamento encontram seus antecedentes nos escritos dos antigos israelitas. Termos como aliança, lei graça, batismo, profeta, sacerdote e rei possuem raízes no Antigo Testamento. Conceito como justiça, perdão, redenção, salvação e santificação foram gerados na mente hebraica muito antes da época do Novo Testamento. Philip Yancey escreve:
Nossas raízes estão nas profundezas do pensamento do Antigo Testamento em muitos aspectos: direitos humanos, governo, conduta com vizinhos, nossa compreensão de Deus -- nós falamos e pensamos Antigo Testamento.
O próprio Jesus é descrito com frequência por imagens do Antigo Testamento: Cordeiro de Deus, Leão de Judá, Messias prometido, Emanuel, Rei dos judeus, Filho do homem e bom Pastor. As páginas do Novo Testamento estão repletas de nomes e termos do Antigo Testamento:
AbraãoMt 1.1
Arca da aliançaAp 11.19
BabilôniaAp 14.8
BelémMt 2.1
CananeiaMt 15.21
DamascoAt 9.3
DaviMt 1.1
EgitoMt 2.14
EliasMt 11.14
EnoqueHb 11.5
Esposa de LóLc 17.32
EufratesAp 9.14
GentiosLc 2.32
IsaíasMt 3.3
IsraelMt 2.20
JericóLc 19.1
JerusalémMt 2.1
JezabelAp 2.20
JopeAt 9.43
MelquisedequeHb 5.6
MoisésJo 7.19
NíniveMt 12.41
PáscoaMc 14.1
PentecostesAt 2.1
SábadoMt 12.2
SamaritanosMt 10.5
SodomaMt 10.15
Sumo sacerdoteHb 3.1
Mais importante do que nomes e termos do Antigo Testamento é sua teologia, que é a base da doutrina do Novo Testamento. Conceitos como pecado, salvação, expiação de sangue, redenção, sacrifício, justificação e santificação são todos fundamentados na teologia do cânon hebraico. Qualquer pessoa que examine os livros do Antigo Testamento descobre a história do amor de Deus pelo mundo. É uma história tão antiga quanto o próprio tempo. Ela começa com as palavras No princípio (Gn 1.1) e transporta-nos pelo túnel do tempo, passando pelos corredores da história, em direção ao desfiladeiro da eternidade.
Em suas páginas, Deus age chamando as pessoas pelo nome: Adão, Abrão, Moisés, Samuel. Seu amor, Sua paciência, Sua ira, Seu julgamento e Seu perdão evidenciam-se vez após vez. Enquanto patriarcas, profetas, sacerdotes e reis tropeçam pelo caminho da vida, Deus está lá para repreender, corrigir e redimir um mundo caído - tudo por causa de Seu imenso amor.
Como os livros do Antigo Testamento foram selecionados?
Quando Moisés desceu do monte Sinai com os Mandamentos dados por Deus, o povo de Israel reconheceu imediatamente a autoridade divinadeles e prometeu obedecê-los como Palavras do Senhor (Êx 24.3-8). Os escritos de Moisés foram armazenados no Santuário central por causa de sua posição especial como Escritura inspirada (Êx 25.16,21; Dt 10.1,2; 31.24-26). Em Deuteronômio 18.15-22, o Senhor prometeu levantar uma sucessão de profetas "como Moisés" para transmitir Sua Palavra às gerações posteriores, e os pronunciamentos desses mensageiros de Deus também teriam sua autoridade divina reconhecida. O profeta Samuel escreveu leis da realeza que foram colocadas diante do Senhor quando a monarquia foi estabelecida em Israel (1Sm 10.25). Os extensos escritos de Davi passaram a ser reconhecidos como Escritura inspirada porque o Espírito de Deus falou por intermédio dele (2sM 23.1,2), e as palavras dos profetas foram colocadas ao longo da Torá (Instruções de Deus) nas Escrituras hebraicas por causa da mensagem, que comprova a mesma. Histórias, salmos e escritos de sabedoria provenientes de outras pessoas que falaram com voz profética foram igualmente respeitados e preservados.
Como o Novo Testamento enxerga o Antigo Testamento?
Jesus e os apóstolos acreditavam na inspiração das Escrituras do Antigo Testamento e, frequentemente, referiam-se a elas ou citavam-nas como textos de autoridade. De acordo com Jesus, as palavras escritas pelos autores humanos das Escrituras eram o "Mandamento de Deus" e a "Palavra de Deus" (Mc 7.8-13; Mt 19.4,5). Como Palavra de Deus, todas as partes do Antigo Testamento seriam consumadas e cumpridas (Mt 5.17,18; 26.54,56; Lc 24.27,44; Jo 7.38), e nada que ela declara poderia ser invalidado ou anulado (Lc 16.17; Jo 10.35). Jesus descreveu o canôn do Antigo Testamento estendendo-se desde Gênesis até Crônicas, ao falar dos assassinatos de Abel e do profeta Zacarias em Mateus 23.34,35 e Lucas 11.49-51 (Gn 4.8 e 2Cr 24.20-22). 


sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

Lição 4 - 27 de Janeiro 2019



INTRODUÇÃO
O relato do endemoninhado gadareno encontra-se também em Mateus e Lucas, com algumas variações. O fato revela informações sobre a possessão demoníaca e o poder absoluto de Jesus sobre todo o reino das trevas. É o prenúncio da vitória final de Cristo sobre Satanás e seus anjos. E não somente isso, mas também uma prova viva de que podemos confiar em Jesus. [Lições Bíblicas CPAD, Revista Adultos, 1º Trimestre 2O19. Lição 4, 27 Jan, 2O19]
- Já temos visto nas lições anteriores que os demônios são anjos caídos, espíritos maus (também chamados de imundos) a serviço de Satanás; Hoje veremos que estes espíritos podem apossar-se de pessoas e dominá-las completamente, causando tormentos, doenças, deformidades físicas, convulsões e principalmente transtornos mentais. É interessante notar que, mesmo sendo contrários ao Senhor e aos Seus santos, estes espíritos continuam ‘estremecendo’ diante do Nome do Senhor; Referem-se a Deus como o “Deus Altíssimo” (Mc 5.7; At 16.17) e a Jesus como o “santo de Deus” (Mc 1.24) ou o “Filho do Deus Altíssimo” (Mc 5.7). Eles chegam a falar dos dois temas contrários: a salvação (At 16.17) e o dia do juízo (Mt 8.29). Lucas registra o encontro de Jesus com o endemoninhado de Gadara e sua libertação (Lc 8.35). Esse encontro provocou diferentes reações nos homens e naqueles espíritos imundos:
Os demônios pediram “com insistência” a Jesus que os transferisse do corpo daquele homem para os porcos que pastavam nas imediações.
●Os gadarenos pediram “com insistência” que Jesus saísse da terra deles.
● E o ex-endemoninhado pediu “com insistência” que Jesus o deixasse permanecer na companhia dele. O que foi liberto escolheu confiar no Senhor – Dito isto, convido-o a pensar maduramente a fé cristã!

I - A POSSESSÃO MALIGNA

1. Harmonização nas narrativas. Mateus afirma que foram dois endemoninhados (Mt 8.28). Mas Marcos e Lucas registram apenas um (Mc 5.2; Lc 8.27). Os pormenores descritos em Marcos são de um só, razão pela qual a narrativa está concentrada nele. Marcos e Lucas registraram apenas o mais violento e o mais feroz deles. O outro detalhe é que Mateus apresentou apenas um resumo do episódio, pois a sua ênfase é a autoridade de Jesus sobre os espíritos malignos. Mateus omite o fato de o porta-voz dos demônios se identificar como "legião" e também o desejo de o gadareno, após sua libertação, seguir a Jesus.
- Em Mateus 8.28-34, encontramos a história da cura de dois endemoninhados gadarenos, já nos relatos paralelos de Marcos 5.1-14 e Lucas 8.26-34, falam de um homem curado por Jesus. Talvez alguns algozes das Escrituras afirmem tratar-se de uma contradição, no entanto, a diferença pode ser explicada. “A explicação, neste caso, é que Mateus foi mais detalhista em seu escrito, como aconteceu também no relato que ele fez a respeito da cura de dois cegos (Ver Mt 2O.3O). Quanto a Marcos e Lucas, eles se ocuparam apenas em focalizar o endemoninhado proeminente. O que devemos levar em consideração no relato desses evangelistas é o propósito de suas narrativas. Ou seja, seu ponto principal: houve ou não o milagre da libertação? Os autores têm a mesma posição quanto ao poder de Cristo? São unânimes ao demonstrar evidências de que Jesus era de fato o Messias ou vacilam nas credenciais messiânicas? Podemos perceber, no Novo Testamento, que todos os evangelistas procuram apresentar evidências conclusivas sobre a vida, ministério, sacrifício, morte e ressurreição de Jesus. E não apenas os evangelistas, mas os inimigos de Cristo (as classes religiosas de sua época e os historiadores céticos) também registram essas evidências. Quanto aos pormenores, cada um escreveu segundo sua própria perspectiva. E faziam isso de acordo como os detalhes lhes saltavam aos olhos: “O que era desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que temos contemplado, e as nossas mãos tocaram da Palavra da vida (Porque a vida foi manifestada, e nós a vimos, e testificamos dela, e vos anunciamos a vida eterna, que estava com o Pai, e nos foi manifestada); o que vimos e ouvimos, isso vos anunciamos, para que também tenhais comunhão conosco; e a nossa comunhão é com o Pai, e com seu Filho Jesus Cristo. Estas coisas vos escrevemos, para que o vosso gozo se cumpra” (1 Jo 1.1-4).” (Extraído de: http://www.cacp.org.br/jesus-curou-um-ou-dois-endemoninhados-em-gadara/. Acesso em: 19 Jan, 2O19).

“2. A opressão. Os demônios aparecem como agentes de Satanás causadores de males, dando às suas vítimas características típicas, como força sobre-humana (Mt 8.28; 17.15; At 19.16), poder de adivinhar (At 16.16) e conhecimento sobrenatural (v.7). Eles atacam suas vítimas e, ao possuí-las, dominam suas faculdades mentais, levando-as à demência (Mt 4.24; 17.15) e às vezes incapacitando-as de falar e de ver (Mt 9.32; 12.22).
- Atenção aqui neste subtópico, é preciso diferenciar possessão de opressão. Muitos professores bíblicos descrevem a influência demoníaca sobre um cristão como "opressão demoníaca" para diferenciá-la da possessão. “Possessão demoníaca significa que a pessoa pertence ao diabo, que está dominando sua vida através de demônios. Opressão demoníaca é uma influência espiritual maligna, que pode até ser muito forte, mas não significa necessariamente que a pessoa pertence ao diabo. Um cristão pode sofrer opressão demoníaca mas não pode ser possesso, porque pertence a Jesus.” (RESPOSTAS). Já vimos nas lições anteriores que o crente que experimentou o novo nascimento não está mais sujeito à possessão demoníaca, apesar de encontrarmos textos bíblicos que afirmam que o diabo procura devorar os crentes (1Pd 5.8), e que Satanás e seus demônios preparam ciladas contra os cristãos (Ef 6.11), mas isto não implica possessão; foi assim que Satanás se arvorou contra Jesus (Lc 4.2). Podemos aprofundar um pouco mais esse assunto e afirmar que o crente poderá sofrer opressão quando este crente ‘permite’ o sucesso desses ataques. Confissão e arrependimento de pecados são necessários para restaurar a comunhão com Deus, o qual pode, então, quebrar o poder de influência demoníaca. O apóstolo João nos dá um grande incentivo nesta área: "Sabemos que todo aquele que é nascido de Deus não vive pecando; antes o guarda aquele que nasceu de Deus, e o Maligno não lhe toca" (1Jo 5.18).
Tentado, não cedas, ceder é pecar
Melhor e mais nobre, será triunfar
Coragem, ó crente, domina o teu mal
Deus pode livrar-te de queda fatal”(Harpa Cristã – Hino 75, Em Jesus Tens a Palma da Vitória).
- Mas cuidado! Facilmente ‘acusamos’ o adversário por coisas ruins que nos acontecem. Esquecemos que nossos problemas também podem ter causas naturais, ou ser fruto de nossas próprias ações. Interessante é que o Reformador alemão Martinho Lutero afirmava que “O diabo é o diabo de Deus” - Lutero, convicto da soberania de Deus, deixa claro que, conquanto satanás seja maligno e ardiloso, ele também está sob o domínio de Deus! A sabedoria de Deus é tão elevada que muitas vezes os atos do diabo acabam, em última análise, contribuindo para os propósitos de Deus, veja o exemplo de Jó.

“3. Um quadro estarrecedor. O endemoninhado gadareno vivia nos sepulcros, desnudo, e era tão violento que nem mesmo os grilhões e as cadeias podiam detê-lo. Corria pelos montes e desertos e se feria com pedras. O fato de procurar viver nos sepulcros já era uma demonstração de sua total anomalia. O comportamento violento e sobrenatural do gadareno, para sua própria destruição, e para a perturbação de seus vizinhos, revela a natureza destruidora de Satanás. [Lições Bíblicas CPAD, Revista Adultos, 1º Trimestre 2O19. Lição 4, 27 Jan, 2O19]
- Este é o relato mais terrível, e mais horripilante, do estado dos endemoninhados descritos pela Palavra de Deus. O Pr David Wilkerson escreve: “Havia uma grande quantidade de sepulcros próximos dos arredores de Gadara. E entre esses sepulcros havia um homem possesso por 2OOO espíritos imundos. Não se consegue nem mesmo tentar imaginar o tormento que esse homem possuído por demônios suportava. As escrituras dizem que ele gritava e clamava a noite toda, rasgando suas roupas e se cortando com pedras. Simplificando, ele vivia como animal selvagem, e ninguém podia ajudá-lo. Satanás tornara esse homem atormentado uma propriedade sua.
Segundo Mateus, tais endemoninhados eram tão ferozes, que ninguém podia passar por aquele lugar, Mt 8.28, "Tendo ele chegado à outra margem, à terra dos gadarenos, vieram-lhe ao encontro dois endemoninhados, saindo dentre os sepulcros, e a tal ponto furiosos, que ninguém podia passar por aquele caminho". Tal era a ferocidade deste homem, que mesmo que alguém o prendesse com correntes, estas eram por ele despedaçadas, Vs. 4. Pessoas endemoninhadas normalmente, têm uma força descomunal.
4. "Andava dia e noite gritando e ferindo-se com pedras", Vs. 5. Três coisas temos aqui:
a) Não dormia – "...andava de dia e de noite",
b) Gritava desesperadamente – "...clamando por entre os sepulcros".
c. Cortava-se com pedras pontiagudas – "...ferindo-se com pedras".
5. Seu espírito e mente estavam desarranjados. Lucas menciona um fato adicional: "Vivia despido", Lc 8.27, "Logo ao desembarcar, veio da cidade ao seu encontro um homem possesso de demônios que, havia muito, não se vestia, nem habitava em casa alguma, porém vivia nos sepulcros".
6. Triste, era o quadro deste homem. Esta é a situação a qual uma pessoa sem Deus pode chegar. Quando Jesus não é o centro de sua vida, você pode ser vítima destes demônios, que não tanto podem possuir-lhe, como podem influenciar sua mente, transformando-o num joguete de Satanás.” (Extraído de:http://www.ibvir.com.br/sermoes/endemoninhado_gadareno_a.htm. Acesso em: 19 Jan, 2O19)

II - A LEGIÃO DEMONÍACA
1. Uma legião. Jesus perguntou como o espírito imundo se chamava, ao que ele respondeu: "Legião é o meu nome, porque somos muitos" (v.9). Uma legião romana era constituída por 6.OOO soldados. Ainda que o número de demônios não seja exato, ou que Legião seja uma identidade, eles eram muitos. Eles são numerosos e poderosos, organizados e batalham sob uma mesma bandeira, a de Satanás.
- Note o versículo 6: “E, quando viu Jesus ao longe, correu e adorou-o”. O demônio, ainda fingindo, tentou adorar a Jesus. Eles conheciam Jesus, e sabiam de seu ministério, e ainda que era Filho de Deus. Isto os levavam a fingir que o adoravam: "Também os espíritos imundos, quando o viam, prostravam-se diante dele e exclamavam: Tu és o Filho de Deus!" (Mc 3.11). Ao aproximar-se de Jesus, o Senhor pergunta seu nome e ele declara que não estava sozinho, mas com uma legião. A Legião Romana era a maior unidade militar do exército romano, consistido de centúrias como a unidade básica. Segundo o site romanmilitary, uma legião era formada pelo somatório de dez coortes (com 5OO homens em cada, totalizando 5 OOO em armas) - Ou seja, um grande número de soldados que mostrava o poderio militar de Roma.. Os demônios, são organizados em companhias, e quase sempre, não estão sozinhos no corpo de alguém. “mas o principal da compreensão não esta alí, saber o número exato da Legião de demônios, o evangelista quer nos dizer que em relação ao demônio Jesus derrotou de tal maneira, que eles são incapazes e inoperantes para alcançar o domínio definitivo. A presença de Cristo privou todas as forças malignas e diabólicas de qualquer poder, com a sua ressurreição.” (WEISER, ALFONS, O que é milagre na Bíblia, para você entender os relatos dos Evangelhos, edições Paulinas, São Paulo, 1978, pág.94-1O8.)

“2. Expulsar e não dialogar. Alguns procuram estabelecer diálogo com os demônios porque Jesus perguntou ao espírito imundo qual era o seu nome. Isso é visto com frequência nos movimentos neopentecostais pela mídia televisiva. "Expulsai os demônios" (Mt 1O.8). Esta é a ordem que recebemos do Senhor, e não de manter diálogo com eles. O Diabo é o pai da mentira (Jo 8.44). Ninguém deve acreditar nem ficar impressionado com as declarações dos demônios, porque eles são mentirosos. Isso ocorreu porque o demônio era obrigado a confessar publicamente quem era o responsável pela miséria do gadareno.
- Note que em Marcos 1.21-26, Jesus entra numa sinagoga para ensinar às Escrituras e se depara com um homem “possesso” que se dirije a Ele e diz: “Que temos nós contigo, Jesus Nazareno? Vieste para destruir-nos? Sei quem és tu, o Santo de Deus”. Jesus não dialoga, não pergunta o nome ou por que oprime aquele homem, somente repreende dizendo: “Cala-te e sai dele”. Podemos observar também que, ainda, no capítulo 1.34, é dito que Jesus, ao realizar exorcismos, não “permitia que os demônios falassem, porque eles sabiam quem ele era”. O diálogo de Jesus com a legião de demônios, além de ser o único evento em que Jesus conversa com um ou vários demônios, não é um ensinamento e nem sequer uma base para se conversar e entrevista-los no momento do exorcismo como vemos nos “cultos” de libertação nas igrejas/seitas neopentecostais, onde se fazem os mais variados tipos de perguntas e, sobretudo, perguntas irrelevantes e patetas aos “supostos demônios”. O diálogo de Jesus com aquela legião de demônios perguntando seu nome não era porque ele não sabia quem eram aqueles demônios. Jesus, como Deus que é, Onisciente e Soberano sabia quem eram aqueles demônios, entretanto, o diálogo e a pergunta revela-nos o seu poder superior sobre o poder dos demônios. Adolph Pohl corrobora que Jesus não perguntou o nome daqueles demônios por não saber, mas para demonstrar que tudo tem de ser entregue a ele. (Comentário Esperança. Marcus, pág 122.)

“3. A presença de Jesus. O poder e a presença de Jesus incomodam o reino das trevas. O espírito imundo perguntou: "Vieste aqui atormentar-nos antes do tempo?" (Mt 8.29). Isto mostra que a presença de Jesus é um tormento para o reino das trevas e também que esse encontro serviu como prenúncio da condenação final do Diabo e seus anjos (Mt 25.41). [Lições Bíblicas CPAD, Revista Adultos, 1º Trimestre 2O19. Lição 4, 27 Jan, 2O19]
- Jesus não ordenou que os demônios manifestassem no homem ou nos homens sob o domínio deles. Os demônios simplesmente quando viram Jesus logo manifestaram. “...a prática de ordenar que o demônio manifeste e conversar com ele conforme é visto nos cultos de libertação nas igrejas/seitas neopentecostais não é coerente com o tipo de exorcismo que as Escrituras ensinam. Tal prática é uma crença pagã antiga onde se acreditava que o conhecimento do nome de uma entidade espiritual que estava possuindo uma pessoa conferia poderes mágicos ao exorcista que era capaz de expulsá-la do corpo da pessoa possessa e até destruí-la. Champlin ressalta que os nomes de vários deuses pagãos nunca eram proferidos, e eram mantidos em segredo por temor que, conhecidos esses nomes, ficaria prejudicado o poder dessas divindades entre o povo, pois algo de sua distinção era prejudicado.[2] Jesus nem sequer os apóstolos utilizavam tal prática pagã no exorcismo, mas, simplesmente, repreendiam o demônio da pessoa que estava sob o seu poder e domínio ordenando-o que fosse embora. O que passar disso no exorcismo não é do agrado de Deus e, sobretudo, fora dos padrões estabelecidos por ele nas Escrituras.” (CACP). O Texto de Marcos e de Lucas traz algo interessante: “Dizendo: Ah! que temos contigo, Jesus Nazareno? Vieste destruir-nos? Bem sei quem és: o Santo de Deus”. (Mc 1.24)” - É notável que este seja o único exemplo em que esse nome é dirigido ao nosso Senhor, embora seja usado por Ele antes de Seu nascimento em Luas 1.32. Em Atos 16.17, uma moça possuída com um espírito de adivinhação, fala de Paulo e seus companheiros como servos do ‘Deus Altíssimo’. O título, "Filho de Deus" é freqüentemente dado a Cristo. As pessoas às vezes são chamadas de filhos, ou filhos de Deus, para denotar sua adoção em sua família (1Jo 3.1). Mas o título dado a Cristo denota sua superioridade aos profetas (Hb 1.1); a Moisés, o codificador do judaísmo (Hb 3.6); denota sua relação única e próxima com o Pai, como evidenciado por sua ressurreição (Sl 2.7; At 13.33); denota sua relação especial com Deus de sua concepção miraculosa (Lc 1.35); e é equivalente a uma declaração de que ele é divino ou igual ao Pai.

III - O PODER DE JESUS
1. Os demônios sabem quem é Jesus. O relato da possessão do gadareno e de sua libertação é uma amostra do poder absoluto de Jesus até sobre todo o reino das trevas. Os próprios demônios sabem quem é Jesus (At 19-15) e conhecem a sua procedência: "Que temos contigo, Jesus Nazareno? Vieste destruir-nos? Bem sei quem és: o Santo de Deus" (Mc 1.24). Eles têm medo de Jesus e estremecem diante dEle (Tg 2.19). Jesus veio para desfazer as obras do Diabo (1 Jo 3.8). Os demônios sabem que há um tempo determinado para o juízo divino sobre as hostes infernais e temem por isso.
- A Bíblia revela a doutrina de que os espíritos malignos não estão agora aprisionados na sua totalidade como serão depois do juízo (2Pd 2.4; Jd 1.6). Eles sabiam que estavam condenados. Eles sabiam que o Filho de Deus seria o vencedor. Porém, eles não sabiam, até que isso ocorresse, que Cristo viria antes do tempo da derrota final. Ele tratou Jesus como homem desprezado (“Jesus de Nazaré” – ‘pode vir alguma coisa boa de Nazaré?’ (Jo 1.46)) e como Deus glorioso (“o Santo de Deus”). Talvez até conhecesse os textos do Salmo 22 (“Eu sou verme e não homem, motivo de zombaria e objeto de desprezo do povo”) e de Isaías 53 (“Foi desprezado e rejeitado pelos homens, homem de dores e experimentado no sofrimento”). Para ele, Jesus não era filho de José, marido de Maria, mas do Deus Altíssimo. O espírito impuro foi obrigado a reconhecer a autoridade e o poder de Jesus, contra o qual não ofereceu resistência. Ele estava bem por dentro do fim dos tempos, quando o Diabo será lançado no lago de fogo que arde com enxofre para ser atormentado “dia e noite, para todo o sempre” (Ap 20.10).

“2. A soberania de Jesus. Nessa passagem, vemos que aqueles demônios, ou pelo menos o porta-voz deles, suplicando, pediram três coisas: que Jesus não os mandasse para outra região (v.1O), que não os mandasse para o abismo antes do tempo (Mt 8.29), e que lhes permitisse entrar na manada de porcos que passava pelo local na ocasião (vv.11,12). Os demônios não são nada diante do Senhor Jesus. Marcos parece mostrar Satanás e seus demônios como inconvenientes, e não como seres todo-poderosos diante de Jesus (Mc 1.23-26,34; 3.11). O inimigo de nossa alma não pode fazer o que quer (Jó 1.12; 2.4-5). Os demônios fizeram esses pedidos porque não podiam resistir ao poder de Jesus.
- Os demônios, como em outras ocasiões, reconheceram Cristo como sendo o Filho de Deus e temeram o tormento que inevitavelmente sofreriam. Atendendo um pedido, Jesus permitiu que os demônios entrassem em uma manada de porcos que estava nas proximidades - Marcos afirma que eram quase dois mil. O resultado foi que toda a manada morreu nas águas do lago (30-32). Aqueles que guardavam os porcos fugiram até à cidade para contar tudo o que havia ocorrido (33). Toda aquela cidade saiu ao encontro de Jesus. O povo, tomado pelo medo (Lc 8.38) rogou que Ele se retirasse do seu território (das suas “fronteiras” ou do seu “distrito”). Eles tiveram medo do poder de Jesus. Algumas vezes, duas questões têm sido formuladas a respeito desse acontecimento. A primeira é: Por que Jesus permitiu que esses porcos fossem destruídos? Houve quem sugerisse que Ele queria confirmar a fé dos dois endemoninhados curados, por esta evidência visível de que os demônios haviam realmente deixado os seus corpos. Alguns pensam que Jesus fez isso para mostrar à multidão o poder tremendo e as tendências destrutivas que os demônios possuem. Trench escreve sobre o relato onde somente é mencionado um endemoninhado: “Se esta concessão ao pedido dos espíritos maus ajudou de alguma maneira a cura deste sofredor, fazendo com que eles relaxassem a sua posse do corpo dele com maior facilidade, aliviando o ataque através de sua saída, este teria sido um motivo suficiente para permitir que aqueles animais morressem. Para a cura definitiva do homem poderia ter sido necessário que ele tivesse esta evidência exterior e o testemunho de que os poderes infernais que o mantinham aprisionado agora o haviam deixado”. Uma segunda pergunta que se faz é a seguinte: Que direito tinha Jesus de destruir a propriedade de outras pessoas? A resposta para esta pergunta é mais difícil. Se tivéssemos certeza de que os donos eram judeus, isto ofereceria uma solução simples. Os judeus deveriam evitar as carnes impuras, o que incluía os porcos. Mas Decápolis era uma região de população predominantemente gentílica. De qualquer forma, o caráter de Cristo garante que Ele não faria nada injusto. Os atos de Deus não podem ser sempre julgados segundo os padrões dos homens. Porém devemos sempre nos lembrar de que Deus não fica devendo nada a ninguém. Se tivéssemos mais informações, poderíamos entender melhor esta situação. (Comentário Bíblico Beacon – CPAD, pág 75,76.)

“3. A libertação do oprimido. A extraordinária libertação do gadareno logo chamou a atenção do povo. Muita gente se reuniu para ver o que havia acontecido, pois a cura repentina do endemoninhado era algo espantoso. Encontraram o homem em perfeito juízo, vestido e junto com Jesus (Lc 8.34-36). Glorificamos a Deus quando vemos pessoas oprimidas pelo maligno sendo libertadas pelo poder de Jesus. Ele nos delegou essa tarefa (Mt 1O.8; Lc 1O.19,2O). [Lições Bíblicas CPAD, Revista Adultos, 1º Trimestre 2O19. Lição 4, 27 Jan, 2O19]
- Não convinha soltar desta prisão, no dia de sábado, esta filha de Abraão (16). Para qualquer um que não esteja cego pelo preconceito, a resposta não só é óbvia como também é mais poderosa quando está implícita e não abertamente verbalizada. A referência de Jesus à mulher como sendo filha de Abraão sugere que ela tem um duplo apelo à misericórdia e ajuda de todos os judeus - como um ser humano e como uma compatriota israelita. E, dizendo ele isso, todos os seus adversários ficaram envergonhados (17). A palavra todos indica que o chefe da sinagoga tinha alguns ajudantes ativos no seu ataque ao Mestre. Mas a réplica de Jesus era tão relevante e tão adequada, que até mesmo estes homens egoístas ficaram envergonhados. Eles não expressaram qualquer refutação - não havia nenhuma a fazer. E todo o povo se alegrava por todas as coisas gloriosas que eram feitas por ele. O povo reconheceu e apreciou aquilo que os líderes religiosos negligenciavam por sua cegueira: que Deus havia trabalhado entre eles, e que havia demonstrado a sua ilimitada compaixão, assim como o seu soberano poder. Aquilo que viram fez com que associassem este Jesus ao Deus do Céu. Sem dúvida, a resposta de Jesus censurando o príncipe da sinagoga aumentou o entendimento e a admiração que sentiram pelo milagre ali presenciado por eles. Charles Simeon faz três reflexões sobre este episódio: 1) Quanta cegueira e hipocrisia existem no coração humano! 2) Como é desejável abraçar cada oportunidade de esperar em Deus! - esta mulher recebeu a cura porque participava fielmente das reuniões na sinagoga; 3) Com que conforto e esperança podemos confiar os nossos problemas a Jesus! Comentário Bíblico Beacon – CPAD, pág 440

IV - OS PORQUEIROS
1. O local do acontecimento. Segundo Mateus, o fato aconteceu na "província dos gadarenos" (Mt 8.28); no entanto. Marcos e Lucas falam da província ou terra "dos gerasenos" (Mc 5.1; Lc 8.26, Nova Almeida Atualizada). Gadara situava-se a oito quilômetros do lago de Genesaré, nome alternativo do mar da Galileia; e Gerasa, a atual Jeras, na Jordânia, ficava a cerca de 5O quilômetros. Ambos os territórios faziam parte da região de Decápolis, a leste da Galileia (Mc 5.2O). Segundo o historiador Josefo, o território de Gadara se estendia até o lago da Galileia. Moedas daquele tempo trazem o nome de Gadara com o desenho de um barco impresso.
- A terra dos gadarenos era uma região a sudeste do mar da Galileia, fazia parte da Decápolis. Estas eram cidades gregas que não pertenciam a um país, eram autônomas. Embora os judeus não criassem porcos, porque a religião judaica os considerava imundos, os gentios não tinham tal conceito" (Bíblia de Estudo Aplicação Pessoal, CPAD, p. 1365.) Gerasa estava a cerca de 48 quilômetros a sudeste do lago. “Gadareno” é o termo que os mais antigos manuscritos gregos apresentam no texto de Mateus. Gadara era a cidade mais próxima, a quase dez quilômetros de distância.

“2. Sobre a manada de porcos. A população de Decápolis era mista, composta por judeus e gentios. A criação de porcos não era permitida aos judeus; por isso, é provável que o porqueiro fosse gentio. O prejuízo foi grande, já que eram dois mil porcos (v.13). Os porcos não resistiram à opressão e se precipitaram por um despenhadeiro, afogando-se no lago (Lc 8.33). A tradição judaica dizia que demônios e porcos são uma boa combinação. Os judeus consideravam os demônios e os porcos como pertencentes à mesma ordem, e os porcos eram considerados o lar dos espíritos imundos. Essa tradição parece ser expressa quando os demônios pediram para entrar na manada de porcos.
- Até os espíritos maus entende que Toda a autoridade pertence a Deus, para eles agirem junto a alguém que pertence a Deus, eles precisam da autorização de Jesus, pois aquele que de fato é de Deus o diabo não toca, se Ele não deixar. E andava ali pastando no monte uma vara de muitos porcos; e rogaram-lhe que lhes concedesse entrar neles; e concedeu-lho. Lucas 8:32, Assim saberão todas as árvores do campo que eu, o Senhor, abati a árvore alta, elevei a árvore baixa, sequei a árvore verde, e fiz reverdecer a árvore seca; eu, o Senhor, o disse, e o fiz. Ezequiel 17:24, E isto faremos, se Deus o permitir (Hb 6.3).
“3. O estranho pedido do povo. Jesus foi convidado a se retirar da terra dos gadarenos por causa do prejuízo dos porqueiros (Mc 5.16,17). Os porcos valiam mais que a vida humana, na concepção daquela gente. Essa estranha recepção causa-nos tristeza e espanto: como o herói é convidado a se retirar? Hoje não é diferente. Há os que substituem Jesus por qualquer coisa. É muito comum "coisificar" as pessoas e personificar as coisas. Para alguns hoje em dia, os animais valem muito mais do que o ser humano. Os noticiários mostram diariamente como muitos governantes tratam os imigrantes de modo inferior aos animais. Esse espírito já existia nos tempos do Novo Testamento (Lc 13.15,16). Na passagem que estudamos, aquela população rejeitou Jesus. [Lições Bíblicas CPAD, Revista Adultos, 1º Trimestre 2O19. Lição 4, 27 Jan, 2O19]
- Jesus não foi bem recebido nessa região. Sua presença levou alguns a sofrerem perda financeira, embora o endemoninhado tenha sido liberto. “O pedido dos demônios foi atendido de pronto. A manada de porcos, “que era de cerca de dois mil, precipitou-se despenhadeiro abaixo, para dentro do mar, onde se afogaram” (Mc 5.13). O pedido dos gadarenos também foi atendido: “Jesus subiu no barco e foi embora” (Lc 8.37). Todavia, o pedido coletivo e unânime do povo daquela cidade é um dos mais estranhos de que se tem notícia! Em vez de pedir que Jesus fosse embora, eles deveriam ter realizado um culto de ação de graças a Deus pela cura daquele homem infeliz e perigoso. Eles deveriam ter levado outros doentes da região para serem também curados. Por trás do estranho pedido estava o dinheiro. Com a morte dos porcos, o prejuízo dos porqueiros e seus associados foi enorme (quase meio milhão de reais, caso os porcos estivessem no ponto de abate).” (ULTIMATO ONLINE). Cristo poderia ter curado e salvado naquele lugar, mas seus habitantes ficaram temerosos e pediram-lhe que fosse embora. Mesmo assim, Ele deixou uma grande testemunha ali. Todos se maravilhavam quando ouviam quão grandes coisas Jesus lhe fizera.


CONCLUSÃO
A possessão demoníaca é um fenômeno estarrecedor que só pode ser contido pelo poder de Jesus.  O Senhor Jesus manifestou seu poder sobre toda a natureza, sobre o vento, sobre o mar, sobre a morte, sobre as enfermidades, sobre o poder das trevas. Os demônios estremecem diante dELe. O poder de Satanás é muito limitado diante do poder de Jesus. Todos nós precisamos de Jesus, da comunhão com Ele, para dEle receber poder e assim expulsar aos demônios, pois Ele nos deu essa autoridade (Lc 1O.19,2O). [Lições Bíblicas CPAD, Revista Adultos, 1º Trimestre 2O19. Lição 4, 27 Jan, 2O19]
- Satanás e os demônios são opositores de todos os crentes verdadeiros e continuamente trabalham em oposição a eles. Os Crentes, entretanto, são protegidos pelo soberania de Deus e pela armadura que Ele deu a cada crente (2Co 11:3; Ef 6:10-18; 2Ts 3:3; Tg 4:7; 1Pe 5:7-10). Quer as forças descontroladas sejam pessoais ou impessoais, Jesus possui poder sobre todas elas. Em um mundo que nos parece inóspito, onde forças sobrenaturais se mostram maiores do que nós, temos a confiança que Deus está no controle de tudo. Satanás e seus demônios são limitados no que eles podem fazer (Jó 1:12; Jó 2:6; Lc 8:32). Ao final, eles serão punidos e destruídos (serão tornados em ruína inúteis) de acordo com o julgamento assegurado a eles pela morte e ressurreição de Cristo. Eles serão confinados eternamente no Lago do Fogo (Is 24:21; Mt 25:41; Jo 12:31; Cl 2:15; Ap 20:10)].



sábado, 17 de novembro de 2018

A apologética entre os pais da Igreja


Na era apostólica, os novos desafios que surgiram para a Igreja primitiva, espalhada por todo o Império Romano, requereram uma apologética incisiva. O judaísmo, o gnosticismo, o paganismo e a cultura e filosofia helenísticas se opuseram fortemente à Igreja. Os apologistas tiveram de defender o cristianismo contra todos esses ataques, buscando conduzir novas pessoas a Cristo e, ao mesmo tempo, mostrando a superioridade da posição cristã.

Justino Mártir (século 2o)


Os apologistas do século 2o desenvolveram seus argumentos, conforme refutações filosóficas, em resposta ao politeísmo e, segundo as críticas, contra a filosofia pagã, ambos artifícios sustentados pelos judeus helenísticos. Entre os apologistas desse período, o mais importante foi Justino Mártir (100-165), um discípulo convertido do platonismo ao cristianismo. Em seu diálogo com Trifão, o judeu, Justino usou as profecias messiânicas do Antigo Testamento para provar que Jesus é o Messias. Em suas duas Apologias, ele apelou para a tolerância civil ao cristianismo e o defendeu como verdadeira filosofia. Para mostrar que o cristianismo deveria ser tolerado, refutou erros comuns e boatos da época (por exemplo: que os cristãos eram ateus e comiam carne e sangue humanos) e apresentou o cristianismo como uma religião moralmente superior às demais. Para fundamentar seu argumento, de que o cristianismo era a verdadeira filosofia, Justino fez a primeira tentativa da história pós-bíblica de correlacionar as doutrinas do evangelho de João sobre o Logos com a filosofia grega, defendendo que o cristianismo era superior ao platonismo e que todas as verdades de Platão não eram mais que cópias de Moisés. No âmbito da argumentação, o posicionamento de Justino era biblicamente consistente e totalmente subordinado à visão cristã. Seus esforços concederam-lhe um lugar na história do cristianismo e ele tem sido considerado um pioneiro no tocante à produção da teologia e apologética cristã pós-bíblica.

Justino Mártir: biografia


O lugar do seu nascimento foi na cidade de Flávia Neápolis (atual Nablus), na Síria, Palestina ou Samaria. Na infância, sua educação incluiu retórica, poesia e história. Como jovem adulto, mostrou interesse por filosofia e estudou primeiro estoicismo e platonismo. Justino foi introduzido na fé diretamente por um velho homem que o envolveu numa discussão sobre problemas filosóficos e, então, lhe falou sobre Jesus. Ou seja, falou a Justino sobre os profetas que vieram antes dos filósofos, ensinando que esses servos de Deus profetizaram a vinda de Cristo e que suas profecias se cumpriram em Jesus. Depois, Justino disse o seguinte: “Meu espírito foi imediatamente posto no fogo e uma afeição pelos profetas e por aqueles que são amigos de Cristo tomou conta de mim; enquanto ponderava nessas palavras, descobri que o cristianismo era a única filosofia segura e útil”. A convicção de Justino de que a verdade em Cristo era tão completa que ele morreu como mártir, sendo decapitado em 165 d.C..

Clemente de Alexandria e Orígenes (século 3o)


O século 3º alexandrino continuou a fomentar as idéias filosóficas do platonismo e do estoicismo, assim como as controvérsias judaicas. Clemente de Alexandria escreveu vários discursos teológicos e apologéticos intitulados “Protrepticus”, um tratado bem mais sofisticado e persuasivo do que aqueles produzidos pelos apologistas do século 2o. Apesar disso, o apologista mais importante do século 3o foi o grego Orígenes (184-254), autor do extenso tratado “Contra Celsum”, uma refutação à filosofia, à ética e ao criticismo histórico de Celsus em oposição ao cristianismo. Nessa obra, Orígenes defende, por exemplo, que Jesus não operou milagres por meio de feitiçaria, oferecendo uma defesa história impressionante da ressurreição de Jesus em resposta à teoria da alucinação supostamente sofrida pelos discípulos cristãos e outras objeções, além de mostrar que os relatos de milagres contidos nas narrativas pagãs eram incomparavelmente inverossímeis quando confrontados com aqueles constantes nos evangelhos. Tudo isso tornou a obra de Orígenes um clássico da apologética cristã através dos séculos.

Clemente de Alexandria: biografia


Nascido provavelmente em Atenas, de pais pagãos, foi instruído profundamente na filosofia neoplatônica. Já adulto, decidiu voltar-se ao cristianismo. No período pré-nicênico de formação da patrística, combateu os hereges gnósticos e teve um papel importantíssimo na história da hermenêutica entre os judeus e os cristãos no período patrístico. Em Alexandria, no período helenístico, a religião judaica e a filosofia grega se encontraram e se influenciaram mutuamente, surgindo, ali, a escola que, influenciada pela filosofia platônica, encontrou um método natural de harmonizar religião e filosofia na interpretação alegórica da Bíblia.
Clemente de Alexandria foi o primeiro a aplicar essa abordagem à interpretação do Antigo Testamento, em substituição à interpretação literal. Durante a perseguição aos cristãos (201-202), pelo imperador romano Sétimo Severo, Clemente transferiu um cargo que possuía na escola catequética ao discípulo Orígenes e refugiou-se na Palestina, junto a um antigo aluno, Alexandre, bispo de Jerusalém, lá permanecendo até sua morte.

Orígenes: biografia


O maior erudito da Igreja antiga, segundo J. Quasten, nasceu de uma família cristã egípcia e teve como mestre Clemente de Alexandria. No decurso de uma viagem à Grécia, em 230, foi ordenado sacerdote na Palestina pelos bispos Alexandre de Jerusalém e Teoctisto de Cesaréia. Em 231, Orígenes foi forçado a abandonar Alexandria devido à animosidade que o bispo Demétrio lhe devotava pelo fato de ele se ter castrado. Também, contribui para isso o fato de Orígenes ter levado ao extremo a apropriação da filosofia platônica, tendo sido considerado herético. Orígenes, então, passou a morar num lugar onde Jesus havia, muitas vezes, permanecido: Cesaréia, na Palestina, onde suas atividades prosseguiram com grande sucesso, abrindo a chamada Escola de Cesaréia. Na sequência da onda de perseguição aos cristãos, ordenada por Décio, Orígenes foi preso e torturado, o que lhe causou a morte, por volta de 253.

Aurelius Augustinus (séculos 4o e 5o)


No quarto e quinto séculos, as religiões pagãs se encontravam em declínio e o cristianismo predominava em todo o Império Romano, particularmente após o edito de Constantino, em 313. Os apologistas cristãos, romanos e gregos escreveram, orgulhosamente, sobre o propósito dos efeitos do cristianismo na transformação da vida dos convertidos. Eles também começaram a desenvolver apresentações mais sistemáticas sobre a cosmovisão cristã em contraste com as filosofias concorrentes, notadamente o neoplatonismo.
O maior apologista desse período e de todo o primeiro milênio depois de Cristo foi Aurelius Augustinus, chamado Agostinho (354-420), bispo de Hipona, cujas obras apologéticas e teológicas variaram amplamente em seus assuntos, contemplando desde a cultura humana até a filosofia e a história. Agostinho foi reconhecido vencedor em seu combate pessoal contra o maniqueísmo, uma filosofia dualística que ensinava que tanto o bem quanto o mal eram realidades últimas, valendo-se do auxílio do platonismo, que o convenceu de que o maniqueísmo era falacioso. Assim, não é de nos surpreender que seus primeiros trabalhos tenham se dedicado a refutar a filosofia maniqueísta.
Conforme Agostinho foi-se envolvendo com o cotidiano da Igreja, seus tratados apologéticos se diversificaram. Escreveu numerosas páginas sobre a vitória do cristianismo contra o paganismo, refutando as heresias que infestavam a Igreja, expondo a verdade cristã de maneira muito positiva em seus sermões e manuais de ensino voltados à edificação dos cristãos. Pesquisador, estudante e pensador notável, Agostinho foi capaz de desenvolver uma apologética baseada em uma cosmovisão metafísica mais sólida que seus predecessores. Apesar de sua visão de mundo ter-se mostrado densamente platônica em seus escritos iniciais, com maturidade espiritual, sua teologia e filosofia tornaram-se significativamente menos platônicas e mais bíblicas.
Especificamente, Agostinho tornou-se o primeiro teólogo e apologista cristão a abraçar, sem reservas, o posicionamento paulino acerca da fé e da soberania de Deus na salvação do homem. Esse pensamento paulino o habilitou a desenvolver uma visão de mundo e da história humana compreensiva e, ao mesmo tempo, sofisticada e filosófica. Tal filosofia era necessária para enfrentar as idéias pagãs, incluindo-se, entre elas, o platonismo, filosofia que Agostinho considerava muito próxima do cristianismo. Todas as correntes filosóficas contemporâneas de Agostinho eram corruptas e incapazes de aproximar o homem de Deus. A filosofia agostiniana foi exposta mais completamente em um de seus últimos trabalhos, A cidade de Deus, incontestavelmente reconhecido como um entre os cinco ou dez livros mais importantes da história do pensamento ocidental.
Na abordagem agostiniana, fé e razão interagem e culminam com o verdadeiro conhecimento de Deus, em Cristo. A razão precede a fé, ao menos para assegurar que esta é útil. Mas, para a fé, ainda que principiante, não basta crer. Antes, busca, também, compreender e, nesse movimento, é ultrapassada pela inteligência que subsiste eternamente. A fé, embora purificante, é transitória, pois aquele que sabe já não precisa crer. A fé precede a razão naquilo que é espiritual e invisível aos olhos carnais, não apenas no tocante à invisibilidade de Deus, mas, principalmente, em relação aos atos redentores de Deus em Cristo, ocorridos no passado e não podem ser diretamente testemunhado pelos fiéis. Por causa dessas verdades não testemunhadas pelos crentes, todo cristão precisa aceitar a autoridade da revelação divina, tal como expressa nas Sagradas Escrituras e testemunhada pela Igreja. Tais verdades passam, então, a ser entendidas assim que os cristãos começam a apreciar o significado delas de dentro para fora (fé-razão) e não de fora para dentro (razão-fé), pois a compreensão (razão) é a recompensa da fé. Por isso, segundo Agostinho, o cristão não deveria tentar compreender para crer, mas, antes, crer para compreender.
Agostinho foi o primeiro apologista a proclamar o princípio da fé em busca da compreensão (fides quaerens intellectum). Mas, para ele, essa questão era apenas “um lado da moeda”. Ele, freqüentemente, expressou essa interação e interdependência entre a fé e a razão em suas declarações, como lemos: “A fé é um passo dado em direção à compreensão; e a compreensão é uma conquista da fé”. Além disso, enfatizou em seus escritos que tanto a fé quanto a razão nos são concedidas mediante a graça divina dispensada a cada um de nós. Agostinho escreveu: “Ninguém é suficiente em si mesmo quanto à fé, seja ela incipiente ou perfeita, mas nossa suficiência está em Deus”. Com isso, Agostinho não queria dizer que os não-cristãos eram completamente ignorantes a respeito de Deus, pois cita Romanos 1.20 para mostrar que alguns filósofos de sua época, especialmente os platonistas, foram capazes de reconhecer a Deus por meio de sua criação. A linha de raciocínio segundo a qual até mesmo os pagãos são capazes de admitir o Criador é essencialmente o que os filósofos chamariam posteriormente de argumento cosmológico. Esse foi apenas um dentre muitos argumentos que Agostinho empregou para defender que o conhecimento de Deus foi acessível aos pagãos. Contudo, esse conhecimento não é eficaz para impedir a idolatria e o politeísmo. A verdadeira adoração a Deus só é possível por meio da fé em Cristo e essa fé não é uma fé infundada. “Eles estão equivocados se pensam que acreditamos em Cristo sem qualquer evidência”, afirmou Agostinho, que reuniu as provas que encontrou, formando um compilado apologético consistente para a defesa da fé em muitas áreas. Essas provas incluem as profecias cumpridas, a adoração da Igreja e a consistência do monoteísmo, os milagres da Bíblia e, especialmente, o milagre da conversão em massa da sociedade romana em um Deus que fora crucificado mesmo sabendo que essa fé os levaria ao martírio.

Aurelius Augustinus: biografia


Agostinho ensinou retórica nas cidades italianas de Roma e Milão. Nesta última, teve contato com o neoplatonismo cristão. Viveu num monastério por um tempo. Em 395, passou a ser bispo, atuando em Hipona (cidade da região Norte do continente africano). Escreveu diversos sermões importantes. Agostinho analisava a vida levando em consideração a psicologia e o conhecimento da natureza. Mas, o conhecimento e as idéias eram de origem divina. Para o bispo, nada era mais importante do que a fé em Jesus e em Deus. A Bíblia, por exemplo, deveria ser analisada, levando-se em conta os conhecimentos naturais de cada época.
Defendia, também, a predestinação, conceito teológico que afirma que a vida de todas as pessoas é traçada anteriormente por Deus. As obras de Santo Agostinho influenciaram muito o pensamento teológico da Igreja Católica na Idade Média.
Morreu em 28 de agosto (dia suposto) de 420, durante um ataque dos vândalos (povo bárbaro germânico) ao Norte da África.



A  mitologia  como  aspecto  da  religiosidade


A antropologia na pregação do evangelho

Missionário, pastor, teólogo e escritor, atuou quase dez anos na África em implantação de igrejas e tradução da Bíblia para a língua Limonkpeln, de Gana. Atualmente, lidera uma equipe missionária na Amazônia

Um aspecto muito valorizado na fenomenologia é o mito. Numa breve conceituação, devemos dizer que o mesmo se distingue da história não por critérios de veracidade, mas, sim, pela forma. Não se refere, portanto, a uma história contada, mas a uma história vivida. Nas palavras de Malinowski, “o mito é uma realidade viva, que se crê ter acontecido em tempos recuados e que continua influenciando o mundo e o destino humano”. Vemos, portanto, que o mito é, de fato, uma força cultural de implicações sociais. Mas, não é um elemento estático em sua cultura. Malinowski, mais uma vez, pontua que “o mito [...] é constantemente recriado; cada mudança histórica gera a sua mitologia que, no entanto, apenas se relaciona indiretamente com o fato histórico. O mito é um constante derivado da fé viva, que carece de milagres; de estudo sociológico, que exige antecedentes; de norma moral, que requer sanção”.
Malinowski, assim, nos apresenta uma tese provável. Observo que a religiosidade de um povo, especialmente animista, é dinâmica e baseada, sobretudo, em sua mitologia. Mas, perguntamo-nos, algumas vezes, se os mitos fundamentam a religiosidade ou se a religiosidade gerou os mitos. De certa forma, mito e magia compartilham o mesmo valor utilitário. Enquanto a magia se propõe a ser uma prática de manipulação da vida, o mito fundamenta as idéias, conceitos e crenças, para que a vida faça sentido, sobretudo, a religiosidade. As explicações da vida, da existência, dos poderes que regem o mundo, das enfermidades, certezas e incertezas, a dubialidade do Universo, seus valores, tudo pode ser encontrado na mitologia de um grupo quando a mesma é preservada e transmitida.

Um exemplo em Gana


Nossa observação, sobretudo dos konkombas de Gana, leva-nos a pensar que há uma modulação entre o perfil étnico e a mitologia presente. Ou seja, a forma tradicional ou progressista, ética ou aética, mágica ou espiritualista, teófana ou naturalista, de um grupo coincide com os elementos em sua mitologia, que fundamentam não apenas suas crenças, mas, também, seu perfil etno-social, desde o agrupamento até a solução para os conflitos da vida.
Sendo a mitologia dinâmica, possivelmente os representantes de um grupo, com clara fundamentação em sua mitologia, não apenas se utilizaram dos mitos existentes, como, também, criaram e recriaram esses e novos mitos, a fim de que se encaixassem no perfil do povo e suprissem sua expectativa.
Dessa forma, a mitologia não é apenas fundante, mas, também, manipulada. Não ocorre de forma intencional, coletiva, mas fragmentada e individualizada. Logo, os mitos não guardam apenas as explicações da vida. Ou seja, em alguns casos, os mitos são um resultado fabricado da própria vida.
Entre os Konkombas de Gana, a mitologia que contorna o personagem Uwumbor é enigmática ao falar de um ser que criou e se distanciou, que observou o pecado do ukpakpalja (homem ganancioso) e se revoltou, levando consigo o paacham (paraíso). Mas, essa mitologia também afirma que Uwumbor, desde os tempos remotos, desceu à terra mais duas vezes para punir o povo, por causa do crescimento do seu mal.
Essa crença mitológica coincide, porém, com uma epidemia que teria devastado boa parte da etnia konkomba-bimonkpeln, em 1870, e com a guerra contra os senhores da terra (gonjas e dagombas), em 1942, que se repetiu em 1993 e 1997.
Naquele ano, mais precisamente em 1942, muitos konkombas foram mortos, especialmente os representantes dos principais clãs. Se por um lado percebemos que a mitologia de Uwumbor e ukpakpalja, que remonta a um tempo antigo, a um passado recuado, patrocinou crenças e convicções por meio de um deus distante e espíritos presentes, levando-os a toda sorte de atos de invocação, adoração e temor, por outro, percebemos que o elemento utilitário (produzido de forma intencional) do retorno de Uwumbor serve para explicar os fatos da vida, no caso: a epidemia e a guerra perdida. Assim, os mitos funcionam como interlocutores entre os grupos com enraizada tradição oral e interagem com a vida, explicando-a e sendo moldados, a fim de explicá-la.

A categorização dos mitos


Mitos, então, são narrativas de idéias mais antigas. Se os novos mitos podem ser criados, os mais antigos influenciam mais a comunidade.
A seguir, algumas categorias de mito. Vejamos:

Mitos de cosmogonias

Relatam sistemas e momentos de origem do Universo e do homem pelo deus, deuses ou força geradora de vida. Esses mitos nos ajudam na teologia da criação. Os mitos de cosmogonias são presentes, sobretudo, em culturas tradicionais, históricas, teófanas e espiritualistas, apesar de também serem encontrados em agrupamentos mágicos. Normalmente, agrupamentos totêmicos possuem vasta preservação dos mitos de cosmogonias, visto que, ali, estão enraizadas parte da lógica totêmica que compõe um grupo ou clã.

Mitos de antropogonias

Relatam a criação do ambiente de vida do homem, como, por exemplo, animais, plantas e ar. Também nos ajudariam nas teologias da criação.

Mitos antigos

Relatam períodos marcantes após a criação. Entre os aborígines da Austrália, é chamado de “tempo dos sonhos”. Entre os bassaris do Togo, são “as árvores que contam a história”. Trata-se, aqui, de mitos e lendas que falam do tempo em que deus e homem conversavam, os primeiros traidores, os primeiros heróis, o crime mais hediondo, os famosos ancestrais, o início dos clãs e grupos, a divisão de línguas, a dispersão social e outros aspectos que nos ajudam na teologia da queda.

Mitos de metamorfose

Relatam eventos marcantes, responsáveis pelas mudanças da forma “antiga” do mundo que o tornaram como é hoje. Devemos lembrar que, entre os konkombas, há aquele mito que relatei sobre o “homem ganancioso”, primeiro criado por Uwumbor, que subia na copa da árvore a cada fim de dia para cortar um bom pedaço de carne do céu azul, que é cheio de carne e era baixo o suficiente. Sua ordem era retirar apenas o necessário para o dia. Entretanto, desconfiando de Uwumbor, certo dia, o ukpakpalja (“homem ganancioso”) cortou carne para muitos e muitos dias e a escondeu. No dia seguinte, a carne colhida apodreceu, causando grande desilusão a Uwumbor, que se distanciou e levou consigo o céu, pacham, para bem longe, para o alto, tornando-o inatingível. Esse tipo de mito nos ajuda na teologia da união com Deus e na expectativa da proximidade com Deus, como temos na teologia da reconciliação.

Mitos de seres espirituais

Relatam os personagens invisíveis, seus nomes, feitos, origem e história. Ajudam-nos a definir o mundo do além e o mundo do aquém.

Mitos naturais

Relatam e explicam, muitas vezes, fatos naturais, como, por exemplo, a chuva, os raios, os trovões, o curso dos rios e os sistemas afins. Podem nos ajudar, a partir do extrato de suas explicações, a explicar o evangelho.

Mitos messiânicos

Relatam personagens ou forças que trazem salvação ao povo. Antropólogos tendem a crer que são raros, porém, tais mitos ocorrem, não objetivamente, em diversas culturas. Para os tarianas, por exemplo, o mito de Keeteh pode representar o messianismo quando relata a luz que, ao fim, brilhará e jogará longe a tristeza do povo Tária.
Para os konkombas de Gana, o mantotiib (“pacto de amizade entre famílias outrora inimigas”) poderia ser empregado para apontar um que faria o mantotiib (“pacto”) entre Deus e os homens.
Para os chakalis, quebrar uma cabaça significa perdão. Cantigas louvam “aquele” que quebrará a grande cabeça, onde se encontram todas as maldades dos chakalis. São mitos messiânicos e ajudam na teologia da redenção.
Independentemente das divergências antropológicas, se os mitos geram idéias ou se as idéias geram os mitos, são as idéias que nos interessam, não importa tanto a sua gênese.
A história é uma narrativa verídica comprovada e o mito necessita de fé, pois é uma narrativa experimentada.

Referências:

1 MALINOWSKI, Bronislaw. Magia, ciência e religião. Lisboa: Edições 70, 1988.
2 Idem.
3 Crença em que todas as formas identificáveis da natureza possuem uma alma e agem intencionalmente.
4 Conjunto de idéias e práticas baseado na crença num parentesco místico entre os homens e os animais, as plantas, os objetos e/ou os fenômenos naturais, que constituem o totem. Este, por sua vez, poderia ser um animal, planta ou objeto que serve como símbolo sagrado de um grupo social (clã, tribo) e é considerado seu ancestral ou divindade protetora.



Apologética na história da Igreja



Nas edições anteriores, falamos sobre a apologética nos escritos de Paulo, João e Pedro. Depois, prosseguimos com Justino Mártir, Clemente de Alexandria, Orígenes e Agostinho. Agora, veremos as contribuições de Anselmo de Cantuária e Tomás de Aquino.

Anselmo (1033-1109)


No século 7o, o cristianismo tinha absorvido a cultura greco-romana e triunfado em sua luta contra o paganismo. A Igreja era a principal expressão da cultura ocidental e seus apologistas concentraram esforços em três direções durante a Idade Média: os judeus não-convertidos, a ameaça islâmica e a fé em busca da compreensão. E foi justamente nesse período que os dois filósofos cristãos em referência (isto é, Anselmo de Cantuária e Tomás de Aquino) se destacaram por suas contribuições com seus trabalhos que, ainda hoje, continuam sendo lidos e debatidos.
Anselmo, arcebispo de Cantuária, foi um dos mais criativos e originais filósofos que a Igreja cristã já concebeu. Ele enfatizava a visão de Agostinho sobre a fé e a razão, que consistia na primazia daquela sobre esta: “Pois eu não procuro entender para crer, mas eu creio para entender”. Apesar de seus argumentos filosóficos serem freqüentemente tratados apenas como provas racionalistas desenvolvidas para convencer ateístas, para Anselmo, no entanto, revelavam a busca pelo entendimento por parte de alguém que já era crente. Por outro lado, é fato que alguns de seus argumentos tinham mesmo a intenção de atuar como evidências para responder aos incrédulos, a fim de confrontá-los com a verdade, como veremos a seguir.
O mais famoso desses argumentos filosóficos ficou conhecido como “argumento ontológico”, um grande suporte para a apologética no período escolástico. A essência desse argumento defende ser inevitável reconhecer a grandeza que envolve o fato de existirmos e a necessidade de um Criador. Partindo da idéia de que “sem um ser superior nada maior pode ser pensado”, Anselmo infere a existência ou ser de Deus.
O argumento tem sido interpretado de muitas maneiras e, às vezes, tem levado a conclusões divergentes. Freqüentemente, tem sido apontado como uma prova racional da existência de Deus e, por causa disso (mas nem sempre), tem sido rejeitado tanto por filósofos cristãos como por incrédulos. Alguns pensadores têm tomado esse argumento para provar que: se existe um Deus, Ele precisa ser um ente necessário, alguém que precisa existir e não poderia simplesmente não existir. Diferentemente, mas nesta mesma linha de raciocínio, um ente cuja existência fosse meramente contingente (ocasional) poderia existir ou não, sem implicações para os demais seres existentes. Ainda outros têm oferecido reinterpretações radicais para esse argumento. Karl Barth, por exemplo, pensava que o argumento queria demonstrar que Deus precisa revelar-se a si mesmo para ser conhecido. Charles Hartshorne reformulou o argumento de Anselmo para provar sua visão teológica processual, segundo a qual Deus não é o maior ente possível, mas está sempre sendo o maior ente possível. Essa diversidade de interpretações certamente desnorteia qualquer pesquisador e prova a genialidade do raciocínio de Anselmo.
A interpretação mais clássica de seu argumento, melhor explicada, seria a seguinte:
1) Percebemos uma hierarquia nos seres, tanto específica quanto genérica, e, para cada ser, deve haver um exemplar, o mais perfeito.
2) Pode-se conceber um ser mais perfeito que todos.
3) Pode-se conceber um ser acima do qual nada se possa imaginar.
4) Esse ser existe necessariamente, pois, se não existisse, não seria o maior, e negá-lo seria negar a hierarquia dos seres.
Outra grande contribuição de Anselmo para a apologética pode ser encontrada em seu livro Cur Deus Homo [Por que Deus se tornou humano?], no qual argumenta que Deus se tornou homem porque apenas Deus, em seu infinito ser, poderia prover uma satisfação (ou compensação) infinita para o pecado humano.
No prefácio à referida obra, Anselmo observa que os mestres da Igreja “discutem as bases da fé cristã não somente para desmascarar a tolice de alguns crentes e quebrantar seus corações, mas, também, para alimentar aqueles que, tendo seus corações limpos pela fé, deleitam-se com os fundamentos racionais dessa mesma fé — um amparo racional que devemos perseguir”.
A primeira parte do referido livro contém respostas de cristãos às objeções de incrédulos que repudiam a fé cristã por ser esta supostamente incompatível com a razão. O livro prova racionalmente que nenhum homem poderia ser salvo sem Jesus Cristo. Nas primeiras páginas, Anselmo explica que o escreveu a pedido de outros crentes. Eles queriam um livro que “não os aproximasse da fé pela razão apenas, mas que fosse capaz também de proporcionar-lhes a compreensão e a contemplação das doutrinas nas quais eles acreditavam, assim como os preparassem para estar prontos, da melhor maneira possível, para dar uma resposta satisfatória a qualquer que lhes perguntassem sobre a razão da esperança que havia neles”. Nesse livro, Anselmo conclui que “os incrédulos procuram a razão porque não crêem, enquanto os crédulos fazem a mesma coisa porque já crêem, e ambos os grupos estão em busca de algo”.
Essas declarações deixam claro que Anselmo não enxergava seu trabalho com um propósito apenas apologético. Antes, foi muito cuidadoso ao negar qualquer intenção de destronar a fé como a base da convicção cristã e esperava oferecer aos seus leitores argumentos racionais que pudessem provar aos incrédulos que a fé cristã tinha uma base racional. Evidentemente, Anselmo via esses argumentos como meios para deixar os incrédulos sem desculpas racionais e, até mesmo, para persuadi-los a aceitar a fé cristã. Contudo, apesar de esses argumentos servirem de ajuda para trazer uma pessoa à fé cristã, para Anselmo, porém, essa fé precisava ser depositada não em argumentos racionais, mas no próprio Cristo.

O raciocínio ontológico de Anselmo de Cantuária


Premissa 1: Existe na mente de todo homem a idéia de um ser a partir do qual não se pode pensar outro maior.
Premissa 2: Existir só na mente é menos perfeito do que existir na mente e também na realidade.
Premissa 3: Se o ser maior do qual não se pode pensar outro só existisse na mente, seria menor do que qualquer outro que também existisse na realidade.
Conclusão: Logo, o ser do qual não se pode pensar outro maior deve existir também na realidade (existência real necessária), logo, conclui-se que existe Deus e esse ser é perfeitíssimo.

Tomás de Aquino


No século 13, a Europa cristã foi abalada com a redescoberta e a difusão dos trabalhos filosóficos de Aristóteles e com o ímpeto dado à visão de mundo aristotélica defendido pelo brilhante filósofo árabe-espanhol Averróis. A crescente influência do pensamento de Averróis nas universidades européias culminou em uma crise entre o pensamento cristão e o pensamento dele. Alguns acadêmicos das universidades começaram a abraçar acriticamente o aristotelismo, enquanto outros, especialmente os ministros da igreja, começaram a condenar qualquer coisa vinda do aristotelismo. Alberto Magno foi um dos primeiros filósofos a se levantar contra esse desafio ao escrever sobre a unidade do pensamento contra Averróis. Mas seu discípulo, Tomás de Aquino (1225-1274), foi quem, de fato, forneceria uma resposta definitiva a esse desafio, de maneira tal que mudaria o curso da filosofia e da apologética cristã.
Tomás de Aquino buscou combater a cosmovisão greco-árabe desenvolvendo uma filosofia cristã por meio da lógica aristotélica. Em sua obra, Suma contra os gentios, apresenta uma apologética direcionada, em primeiro lugar, a Averróis, mas, também, abrindo margem para a compreensão de uma filosofia cristã nos termos aristotélicos. Sua outra obra, Suma teológica, foi um tratado de teologia sistemática voltado a instruir os estudiosos cristãos sobre a teologia e é muito importante, pois contém sólidas incursões na apologética e na teologia da fé.
A dicotomia entre fé e razão assumida por Aquino é freqüentemente contrastada com a de Agostinho, mas, a despeito de suas distinções semânticas e estruturais, as concepções de ambos os pensadores não estão emancipadas.
De acordo com Aquino, algumas verdades sobre Deus são apreensíveis pela razão ou pela fé, porém, outras poderiam ser acessadas somente pela fé. Até mesmo certas verdades apreensíveis pela razão são dependentes da fé em certo sentido, pois a nossa razão é finita, propensa a errar, suscetível ao pecado, e sempre incerta. Por outro lado, a fé é totalmente segura, porque firma-se na revelação do próprio Deus sobre si mesmo.
Aquino ficou muito conhecido devido aos seus cinco argumentos em favor da existência de Deus. Esses argumentos teístas têm sido assunto de inúmeros debates por mais de dois séculos. O próprio Aquino não deu grande ênfase a essas cinco argumentações, que consomem apenas algumas poucas páginas em seus dois tratados. Conforme o pensamento de Aquino, a existência de Deus é, ainda que vagamente, reconhecida por todos os seres humanos. A existência de Deus pode ser inferida pela natureza de um mundo variável, causativo, contingente, graduado e ordenado.
Segundo Aquino, essas evidências mostram que um Deus existe, mas não provam Deus por si mesmas. Para ele, a fé em Deus deve basear-se em sua revelação nas Sagradas Escrituras e não nessas evidências extrínsecas. A princípio, tais evidências não são apresentadas por Aquino como uma refutação ao ateísmo, que, a propósito, sequer era uma corrente expressiva no período escolástico; antes, essas evidências atestam a coerência entre o cristianismo e o aristotelismo.
De maneira muito interessante, Aquino foi um crítico de certas espécies de evidências teístas. Como exemplo, podemos ressaltar que ele rejeitou o argumento ontológico de Anselmo. Aquino deu particular atenção às provas fundadas sobre bases filosóficas contra a eternidade do mundo. Concluiu que a filosofia não poderia provar nem rejeitar a eternidade do mundo e, conseqüentemente, não poderia também provar a existência de Deus a partir do fato da origem (criação) do mundo no tempo. Em vez disso, Aquino salientou que não devemos crer que o mundo é eterno, porque sabemos, por meio da revelação de Deus em suas Sagradas Escrituras, que o mundo foi criado por Ele num dado instante.
Aquino, muitas vezes, empregou as evidências tradicionais do cristianismo seguindo a linha de raciocínio de Agostinho, mas incluiu entre elas a conversão das massas, a fidelidade das profecias e os milagres. Ele foi muito cuidadoso ao apontar, porém, que esses argumentos mostram que o cristianismo é plausível e podem ser usados para refutar várias objeções, mas não são tão eficazes para tornar o cristianismo crível aos incrédulos.
Em resumo, os cinco argumentos que para Tomás de Aquino demonstram a existência de Deus são:
1) O primeiro motor imóvel: o movimento existe, é evidente aos nossos sentidos. Ora, tudo aquilo que se move é movido por outra força, ou motor. Não é lógico que haja um motor, outro e outro, e assim indefinidamente; há de haver uma origem primeira do fenômeno do movimento, um motor que move sem ser movido, que seria Deus.
2) A causa primeira: toda causa é efeito de outra, mas é necessário que haja uma primeira causa não causada, que seria Deus.
3) O ser necessário: todos os seres são finitos e contingentes (“são e deixam de ser”). Se tudo fosse assim, todos os seres deixariam de ser e, em determinado momento, nada existiria. Isto é absurdo; logo, a existência dos seres contingentes implica em um ser necessário, ou Deus.
4) O ser perfeitíssimo: os seres finitos realizam todos determinados graus de perfeição, mas nenhum é a perfeição absoluta; logo, há um ser sumamente perfeito, causa de todas as perfeições, que seria Deus.
5) A inteligência ordenadora: todos os seres tendem para uma finalidade, não em virtude do acaso, mas segundo uma inteligência que os dirige. Logo, há um ser inteligente que ordena a natureza e a encaminha para seu fim; esse ser inteligente seria Deus.
Para finalizarmos, a originalidade do pensamento de Tomás de Aquino evidencia-se em sua concepção de existência, vista como ato supremo e como a perfeição de estar em Deus e, ao mesmo tempo, entre as coisas criadas; na atribuição do ato criativo unicamente a Deus; na negação da existência de matéria nos seres angelicais e, conseqüentemente, na distinção entre Deus e as criaturas, definidas como uma composição de existência e essência. Todas as criaturas teriam o amor a Deus como tendência natural. Na visão de Tomás de Aquino, o teólogo aceita a autoridade e a fé como pontos de partida e procede, então, a conclusões mediante o uso da razão. O filósofo é aquele que se atém à razão. Pela primeira vez, a teologia foi expressamente definida dessa maneira, o que ocasionou um sem-número de oposições, algumas das quais perduram ainda, sobretudo entre religiosos para os quais a razão é sempre vista como intrusa em questões de fé.

Categorias das obras de Tomás de Aquino


1) Comentários: à lógica, à física, à metafísica, à ética de Aristóteles; às Sagradas Escrituras; a Dionísio pseudo-areopagita; aos quatro livros das sentenças de Pedro Lombardo.
2) Sumas: Suma contra os gentios, baseada substancialmente em demonstrações racionais. Suma teológica, iniciada em 1265, ficando inacabada, devido à morte prematura do autor.
3) Questões: Questões disputadas (da verdade, da alma, do mal, etc.); Questões várias.
4) Opúsculos: Da unidade do intelecto contra os averroístas. Da eternidade do mundo. Entre outros.



Extremismo cristão - Uma breve análise bíblica e histórica




“... Vem mesmo a hora em que qualquer que vos matar cuidará fazer um serviço a Deus” (Jo 16.2)

Cristianismo e extremismo religioso


A primeira coisa a dizer sobre o assunto é o seguinte: qualquer violência, de qualquer espécie, que tenha acontecido na história sob a bandeira do cristianismo não passa de uma distorção desse mesmo cristianismo. Isso porque o cristianismo nasceu do ensino de Cristo e de seus discípulos e apóstolos, e seus escritos são a única fonte autorizada da doutrina cristã. E tudo aquilo que não está de acordo com ela não pertence a ela, definitivamente!
A Guerra dos Trinta Anos, que varreu a Europa de 1618 a 1648, e o atual conflito entre as Irlandas do Norte e do Sul, são embates de natureza política, cujos grupos antagônicos se identificaram com determinado ramo do cristianismo. Os conflitos por lá existem sim, mas não por causa do evangelho, e muito menos por conseqüência dele.
As guerras e as revoluções são efetivadas como resultado de uma busca pelo poder e riqueza. Os povos, ou mesmo os governantes envolvidos nesses conflitos, apresentam uma cultura particular, muitas vezes uma cultura cristã, seja ela católica, protestante ou outra. Cultura cristã, todavia, não é sinônimo de cristianismo, e muito menos de doutrina cristã. Agressões podem ter sido feitas em nome do cristianismo, mas nunca com sua aprovação. Não negamos que atos reprováveis desta natureza tenham acontecido no passado ou aconteçam no presente tempo. O que queremos esclarecer é que estes atos não têm o mínimo apoio das Escrituras.

O cristianismo bíblico é sofredor e não agressor


“Ouvistes que foi dito: Olho por olho, e dente por dente. Eu, porém, vos digo que não resistais ao mal; mas, se qualquer te bater na face direita, oferece-lhe também a outra; e, ao que quiser pleitear contigo, e tirar-te a túnica, larga-lhe também a capa; e, se qualquer te obrigar a caminhar uma milha, vai com ele duas. Dá a quem te pedir, e não te desvies daquele que quiser que lhe emprestes. Ouvistes que foi dito: Amarás o teu próximo, e odiarás o teu inimigo. Eu, porém, vos digo: Amai a vossos inimigos, bendizei os que vos maldizem, fazei bem aos que vos odeiam, e orai pelos que vos maltratam e vos perseguem...” (Mt 5.38-45).
Matar, ferir, agredir, prender, coagir em nome da fé cristã é uma negação desta mesma fé cristã. Nenhum cristão, em obediência à Palavra de Deus, está autorizado ou motivado a cometer ações extremas em nome de Cristo. Se um soldado cristão já o fez, fê-lo em nome de seu país, justa ou injustamente, mas não por ser um cristão.
Na verdade, nem mesmo as agressões aos cristãos nos países de maioria não-cristã justificam uma reação agressiva por parte da Igreja, quer seja provocada pela manifestação popular, que seja pela ação estatal. O espírito pacifista do cristianismo foi um ingrediente poderoso para a promoção da conversão do Império Romano. A paciência e resignação dos mártires diante de seus algozes convenceram a população do Império quanto à superioridade da mensagem cristã. Os cristãos primitivos estavam prontos a morrer por sua fé, mas nunca a matar por causa dela.

O cristianismo bíblico é persuasivo e não impositor


“Porque, sendo livre para com todos, fiz-me servo de todos para ganhar ainda mais. E fiz-me como judeu para os judeus, para ganhar os judeus; para os que estão debaixo da lei, como se estivesse debaixo da lei, para ganhar os que estão debaixo da lei. Para os que estão sem lei, como se estivesse sem lei (não estando sem lei para com Deus, mas debaixo da lei de Cristo), para ganhar os que estão sem lei. Fiz-me como fraco para os fracos, para ganhar os fracos. Fiz-me tudo para todos, para por todos os meios chegar a salvar alguns” (1Co 9.19-22).
Esta é a forma bíblica de expansão do evangelho. Nada de agressões verbais ou físicas. Nada de imposições ou obrigações estabelecidas, seja pelo Estado, seja por alguma instituição sujeita ao governo. Pregar e ensinar foram o método estabelecido por Jesus para divulgar sua mensagem ao mundo e foi justamente dessa forma que seus discípulos procederam. Se pessoas mudariam sua fé, elas o fariam por meio da persuasão dos pregadores e não pela coação.
O cristianismo nasceu ancorado somente no poder da Palavra divina. Não dispunha de poder político, econômico ou militar. E, em seus escritos, jamais considerou esses elementos necessários para cumprir sua missão. Só veio apropriar-se desses meios mais de três séculos após sua existência, mas, mesmo assim, somente uma pequena parcela de seus seguidores lançou mão deles. O cristianismo continuou se expandido. E, se no período colonial cresceu ancorado em ações estatais, a fé cristã, no entanto, não deixou de se espalhar, mesmo depois de haver perdido esse apoio. Na verdade, passou a manifestar seu verdadeiro caráter: persuadir os homens à fé por meio da pregação inspirada pelo Espírito Santo de Deus.

O cristianismo bíblico é espiritual e não bélico


“Porque as armas da nossa milícia não são carnais...” (2Co 10.4), diria o apóstolo. O combate pelo evangelho, tantas vezes mencionado (Ef 6.12; Fl 1.27,30; Cl 1.29), era apenas uma analogia, uma comparação. Em nenhum momento, a espada foi colocada como meio de propagação da Palavra de Deus. “Embainha a tua espada; porque todos os que lançarem mão da espada, à espada morrerão”, disse Jesus (Mt 26.52).
As atuais dimensões da fé evangélica no mundo, principalmente no hemisfério Sul, são fruto do movimento missionário do século 19. Em poucas vezes, houve a imposição das forças imperialistas. Em sua maior parte, dependeu da dedicação de homens consagrados à tarefa de ganhar almas e dos avivamentos decorrentes de seu trabalho.
Em sua busca de evangelizar o mundo, o “fator indivíduo”, não o “fator país”, predomina no que diz respeito à visão de expansão da fé bíblica. A idéia de ganhar os governantes para converter a nação não é corrente. Cada indivíduo de cada nação precisa ser levado a uma decisão por Cristo. Esse é o fundamento das Escrituras, que mostram a mensagem de salvação não como algo destinado a ser cultura de um povo específico, mas como experiência particular de cada pessoa.

Extremismo filosófico


Ninguém se apóie em extremismos cristãos ocorridos na história e em atuais conflitos bélicos justificados pela religião para condenar o cristianismo. Os grupos ateístas e secularistas modernos gostam de atribuir à religião a culpa exclusiva pelos embates bélicos mundiais. Deduzem que se não houvesse ideologias religiosas, haveria paz.
Todavia, isto não é verdade. Qualquer extremismo é nocivo, seja ele religioso ou não. A intolerância, e não a convicção de qualquer espécie, atua como um motor por trás da agressão e do terrorismo. Qualquer ideologia, por mais passiva e neutra que seja, pode se tornar fonte de conflitos quando levada a extremos. A história é testemunha disso.
Entre os exemplos mais próximos, temos o nazismo e o comunismo. Estes não têm base religiosa, ao menos declaradamente. Entretanto, apoiados em pressupostos raciais ou filosóficos, produziram uma infinidade de mortos e um sem número de guerras em todo o mundo. Segundo O livro negro do comunismo, lançado pela editora Bertrand Brasil, o comunismo produziu entre 85 e 100 milhões de mortos, geralmente por se oporem à revolução, ou como tática política para efetivação da mesma.1
Logo, conflitos não são exclusividade da religião.


Heresias primitivas


“O que foi é o que há de ser; e o que se fez, isso se tornará fazer; nada há, pois, novo debaixo do sol. Há alguma coisa de que se possa dizer: Vê, isto é novo? Não! Já foi nos séculos antes de nós” (Ec 1.10)

Você sabia que o batismo pelos mortos foi uma heresia apregoada cerca de 1600 anos antes da “revelação”, que é atribuída pelos mórmons a Joseph Smith Jr.? Esse é apenas um dos muitos desvios doutrinários que atravessaram séculos e foram incorporados pelas seitas pseudocristãs.
A “revelação”, baseada na necessidade de restaurar a igreja, e a rejeição ao Antigo Testamento surgiram na mesma época e fluíram dos ensinamentos de Márcion. Montano pregou que o fim do mundo ocorreria em sua geração e atribuiu a si o fato de iniciar e findar o ministério do Espírito Santo. Sabélio, com seu modalismo, foi outra fonte de distorções bíblicas que até hoje é disseminada entre os evangélicos. Ainda fazem parte desse grupo Mani, com sua doutrina reencarnacionista; Ário, que deturpou a natureza de Jesus ao apresentá-lo como um ser criado (gravíssimo engano sustentado pelas testemunhas de Jeová); Apolinário, que, ao contrário do antecedente, negou a humanidade de Cristo; Nestório, que ensinava a existência de duas pessoas distintas em Cristo; Pelágio, que, como os islâmicos e outros grupos religiosos, negava a doutrina do pecado original; e Eutíquio, que afirmava que a natureza humana de Cristo havia sido absorvida pela divina.
Como podemos inferir, as heresias combatidas pela igreja contemporânea foram enfrentadas pela igreja primitiva que, com muito esforço e com a ajuda de concílios e credos, conseguiu defender a fé que “de uma vez por todas foi entregue aos santos”. Continuemos a defendê-la!

Márcion (95 - 165)


Informações indicam que Márcion nasceu em Sinope, no Ponto, Ásia Menor. Foi proprietário de navios, portanto, muito próspero, e aplicou sua vida à fé religiosa, primeiramente como cristão e, finalmente, ao desenvolvimento de congregações marcionitas.
Influente líder cristão, suas idéias lhe conduziram à exclusão, em 144 d.C. Então, formou uma escola gnóstica. Tendo uma mente prolífera, desenvolveu muitas idéias, as quais foram lançadas em uma obra apologética alvo de combate de apologistas, especialmente Tertuliano e Epifânio.
Procurou ter uma perspectiva paulina, contudo, incluiu muitas idéias próprias e conjecturas sem respaldo bíblico. Era convicto de uma missão pessoal: restaurar o puro evangelho. Antes, rejeitou o Antigo Testamento por achá-lo inútil e ultrapassado, além de afirmar que foi produzido por um deus inferior ao Deus do evangelho. Para Márcion, o cristianismo era totalmente independente do judaísmo; era uma nova revelação. Segundo ele, Cristo pegou o deus do Antigo Testamento de surpresa e este teve de entregar as chaves do inferno Àquele. Além disso, Cristo não era Deus, apenas uma emanação do filho de Deus. O único apóstolo fiel ao evangelho, segundo Márcion, fora Paulo, em detrimento dos demais apóstolos e evangelistas. Conseqüentemente, a Igreja primitiva havia desviado e, por isso, necessitava de uma restauração. Ainda segundo ele, o homem devia levar uma vida asceta, o casamento, embora legal, era aviltador.
Entre seus muitos ensinos, encontramos o batismo pelos mortos.
O cânon de Márcion restringia-se às dez epístolas de Paulo e à uma versão modificada do Evangelho de Lucas.

Gnosticismo


Nome derivado do termo grego gnosis, que significa “conhecimento”. Os gnósticos se transformaram em uma seita que defendia a posse de conhecimentos secretos. Segundo eles, esses conhecimentos tornavam-nos superiores aos cristãos comuns, que não tinham o mesmo privilégio. O movimento surgiu a partir das filosofias pagãs anteriores ao cristianismo que floresciam na Babilônia, Egito, Síria e Grécia (Macedônia). Ao combinar filosofia pagã, alguns elementos da astrologia e mistérios das religiões gregas com as doutrinas apostólicas do cristianismo, o gnosticismo tornou-se uma forte influência na igreja.
A premissa básica do gnosticismo é uma cosmovisão dualista. O supremo Deus Pai emanava do mundo espiritual “bom”. A partir dele, surgiram sucessivos seres finitos (éons) até que um deles, Sofia, deu à luz a Demiurgo (Deus criador), que criou o mundo material “mau”, juntamente com todos os elementos orgânicos e inorgânicos que o constituem.
Cristãos gnósticos, como Márcion e Valentim, ensinavam que a salvação vem por meio desses éons, Cristo, que se esgueirou através dos poderes das trevas para transmitir o conhecimento secreto (gnosis) e libertar os espíritos da luz, cativos no mundo material terreno, para conduzi-los ao mundo material mais elevado. Cristo, embora parecesse ser homem, nunca assumiu um corpo; portanto, não foi sujeito às fraquezas e às emoções humanas.
Algumas evidências sugerem que uma forma incipiente de gnosticismo surgiu na era apostólica e foi o tema de várias epístolas do Novo Testamento (1João, uma das epístolas pastorais). A maior polêmica contra os gnósticos apareceu, entretanto, no período patrístico, com os escritos apologéticos de Irineu, Tertuliano e Hipólito. O gnosticismo foi considerado um movimento herético pelos cristãos ortodoxos. Atualmente, é submetido a muitas pesquisas, devido às descobertas dos textos de Nag Hammadi, em 1945/46, no Egito. Muitas seitas e grupos ocultistas demonstram alguma influência do antigo gnosticismo (“Dicionário de religiões, crenças e ocultismo”. George A. Mather & Larry A Nichols. Vida, 2000, pp 175-6).

Montano (120 - 180)


Por volta do ano 150 d.C., surgiu na Frígia um profeta chamado Montano que, junto com Prisca e Maximilia, se anunciou portador de uma nova revelação. Inicialmente, esse novo movimento reagiu contra o gnosticismo, contudo, ele mesmo se caracterizou por tendências inovadoras. As profecias e revelações de Montano giravam em torno da segunda vinda e incentivavam o ascetismo.
Salientavam fortemente que o fim do mundo estava próximo, e esperavam esse acontecimento para a sua própria geração. Insistiam sobre estritas exigências morais, como, por exemplo, o celibato, o jejum e uma rígida disciplina moral. Exaltavam o martírio e proibiam que seus seguidores fugissem das perseguições. Alguns pecados eram imperdoáveis, independente do arrependimento demonstrado.
Finalmente Montano afirmou ser o Paracleto, pois nele iniciaria e findaria o ministério do Espírito Santo. Prisca e Maximilia abandonaram seus respectivos maridos para se dedicarem à obra profética de Montano. Algumas vezes, Montano procurava esclarecer que ele era um agente do Espírito Santo, mas sempre retornava à sua primeira posição e afirmava ser o Consolador prometido. Sua palavra deveria ser observada acima das Escrituras, porque era a palavra para aquele tempo do fim.
Esse movimento desvaneceu-se no terceiro século no Ocidente e no sexto, no Oriente.

Ascetismo


Autonegação, visão de que a matéria e o espírito estão em oposição um ao outro. O corpo físico, com suas necessidades e desejos inerentes, é incompatível com o espírito e sua natureza divina. O ascetismo defende a idéia de que uma pessoa só alcança uma condição espiritual mais elevada se renunciar à carne e ao mundo.
O ascetismo foi amplamente aceito nas religiões antigas e ainda hoje é uma filosofia proeminente, sobretudo nas seitas e religiões orientais. Platão idealizou-o. As seitas judaicas, como os essênios, praticavam-no fervorosamente e o cristianismo institucionalizou-o, com o desenvolvimento de várias ordens monásticas. O gnosticismo foi o maior defensor dessa filosofia (“Dicionário de religiões, crenças e ocultismo”. George A. Mather & Larry A Nichols. Vida, 2000, p. 23).

Sabélio (180 – 250)


Nasceu na Líbia, África do Norte, no terceiro século depois de Cristo. Depois, mudou-se para a Itália, passando a viver em Roma. Ao conhecer o evangelho, logo se tornou um pensador respeitado em suas considerações teológicas. Recebeu influência do Modalismo que já estava sendo divulgado na África.
O Modalismo ocorreu, no início, como um movimento asiático, com Noeto de Esmirna. Os principais expoentes do movimento: Noeto, Epógono, Cleômenes e Calixto. Na África, foi ensinado por Práxeas e na Líbia, defendido por Sabélio. Hoje, o Modalismo é muito conhecido pelo nome sabelianismo, devido à influência intelectual fornecida por Sabélio. O objetivo de Sabélio era preservar o monoteísmo a qualquer custo. Tinha um objetivo em vista que, pensava, justificava os meios.
Ensinava que havia uma única essência na divindade, contudo, rejeitava o conceito de três Pessoas em uma só essência. Afirmava que isso designaria um culto triteísta, isto é, de três deuses. A questão poderia ser resolvida, afirmava, pelo conceito de que Deus se apresentaria com diversas faces ou manifestações. Primeiramente, Deus se apresentou como Deus Pai, gerando, criando e administrando. Em seguida, como Deus Filho, mediando, redimindo, executando a justiça. E finalmente e sucessivamente, como Deus Espírito Santo, fazendo a manutenção das obras anteriores, sustentando e guardando. Uma só Pessoa e três manifestações temporárias e sucessivas.

Mani (216 - 277)


Nasceu por volta de 216 d.C. na Babilônia. Foi considerado por alguns como o último dos gnósticos. Diferente dos demais hereges, desenvolveu-se fora do cristianismo. Todavia, era um rival do evangelho.
Seus ensinos buscavam respaldo no cristianismo. Afirmava, por exemplo, ser o Paracleto, o profeta final. Em seus ensinos enfatizava a purificação pelos rituais. Em 243 d.C., o profeta Mani teve seus ensinamentos reconhecidos por Ardashir, rei sassânida (Índia). Então, a nova fé teve o seu “pentecostes”, analogia traçada pelos maniqueístas.
Durante 34 anos, Mani e seus discípulos intensificaram seu trabalho missidevo aponário pelo leste da Ásia, Sul e Oeste da África do Norte e Europa.
A base do maniqueísmo engloba um Deus teísta que se revela ao homem. Deus usou diversos servos, como Buda, Zoroastro, Jesus e, finalmente, Mani. Deveriam seus discípulos praticar o ascetismo e evitar a participação em alguma morte, mesmo de animais ou plantas. Deveriam evitar o casamento, antes, abraçarem o celibato. O universo é dualista, existem duas linhas morais em existência, distintas, eternas e invictas: a luz e as trevas.
A remissão ocorre pela gnosis, conhecimento especial que os iniciados conquistavam. Entre os remidos há duas classes, os eleitos e os ouvintes. Os eleitos não podiam nem mesmo matar uma planta, por isso eram servidos pelos ouvintes, que podiam matar plantas, mas nunca animais ou até mesmo comê-los. Os eleitos subiriam, após a morte, para a glória, enquanto os ouvintes passariam por um longo processo de purificação. Quanto aos ímpios, continuariam reencarnando na terra. Recebeu grande influência de Márcion.

Ário (256-336)


Presbítero de Alexandria entre o fim do terceiro século e o início do quarto depois de Cristo. Foi excluído em 313, quando diácono, por apoiar, com suas atitudes, o cisma da Igreja no Egito. Após a morte do patriarca da Igreja em Alexandria, foi recebido novamente como diácono. Depois, nomeado presbítero, quando então começou a ensinar que Jesus Cristo era um ser criado, sem nenhum dos atributos incomunicáveis de Deus, por exemplo, eternidade, onisciência, onipotência etc, pelo que foi censurado, em 318, e excluído, em 321. Mas, infelizmente, sua influência já havia sido propagada e diversos bispos da Igreja no Oriente aceitaram o novo ensino.
Em 325, ocorreu o concílio de Nicéia e Ário, apesar de excluído, pôde recorrer de sua exclusão, sendo banido. Ário preparou uma resposta ao Credo Niceno, o que impressionou muito o imperador Constantino. Atanásio resistiu à ordem de Constantino de receber Ário em comunhão. Então Ário foi deposto e exilado em Gália, falecendo no dia em que entraria em comunhão em Constantinopla.
A base de seu ensino era estabelecer a razão natural como meios de entender a relação Deus e Cristo. Haveria uma só Pessoa na divindade. O logos não foi apenas gerado, mas literalmente criado. Seria tão-somente um intermediário entre Deus e os homens e, devido à sua elevada posição, receberia adoração e glória.

Apolinário (aprox. 310-390)


Foi bispo de Laodicéia da Síria no final do quarto século. Cooperou na reprodução das Escrituras. Fez oposição à afirmação de Ário quanto à criação e à mutabilidade de Cristo.
Por outro lado, se opôs ao conceito da completa união entre as naturezas divina e humana em Jesus. Afirmava que Jesus não tinha um espírito humano. Segundo ele, o espírito de Cristo manipulava o corpo humano. Sua posição inicial era contra o arianismo, que negava a divindade de Cristo. Em sua opinião, seria mais fácil manter a unidade da Pessoa de Cristo, contanto que o logos fosse conceituado apenas como substituto do mais elevado princípio racional do homem. Contrapondo-se a Ário, ele advogava a autêntica divindade de Cristo, e tentava proteger sua impecabilidade substituindo o pneuma (espírito) humano pelo logos, pois julgava aquele sede do pecado.
Conseqüentemente, Apolinário negava a própria e autêntica humanidade de Jesus Cristo.
Em 381, o sínodo de Constantinopla declarou contundentemente, entre outros sínodos, herética a cristologia de Apolinário.
Apolinário formou um grupo de discípulos que manteve seus ensinos. Mas não demorou muito e o movimento se desfez.

Nestório (aprox. 375-451)


Patriarca da Igreja em Constantinopla na metade do quinto século depois de Cristo. Seu objetivo de expurgar as heresias na região de seu controle encontrou problemas quando expressou sua cristologia. Encontrava-se em seu tempo idéias divergentes sobre a natureza de Cristo. Alguns, aparentemente, negavam a existência de duas naturezas em Cristo, postulando uma única natureza. Outros, como Teodoro de Mopsuéstia, afirmavam que o entendimento deveria partir da completa humanidade de Cristo. Teodoro negava a residência essencial do logos em Cristo, concedendo somente a residência moral. Essa posição realmente substituía a encarnação pela residência moral do logos no homem Jesus. Contudo, Teodoro declinava das implicações de seu ensino que, inevitavelmente, levaria à dupla personalidade em Cristo, duas pessoas entre as quais haveria uma união moral. Nestório foi fortemente influenciado pelo seu mestre, Teodoro de Mopsuéstia.
O nestorianismo é deficiente, não em relação à doutrina das duas naturezas de Cristo, mas, sim, quanto à Pessoa de cada uma delas. Concorda com a autêntica e própria deidade e a autêntica e própria humanidade, mas não são elas concebidas de forma a comporem uma verdadeira unidade, nem a constituírem uma única pessoa. As duas naturezas seriam igualmente duas pessoas. Ao invés de mesclar as duas naturezas em uma única autoconsciência, o nestorianismo as situava lado a lado, sem outra ligação além de mera união moral e simpática entre elas. Jesus seria um hospedeiro de Cristo.
Nestor foi vigorosamente atacado por Cirilo, patriarca de Alexandria, e condenado pelo Terceiro Concílio de Éfeso, em 431.
O movimento nestoriano sobreviveu até o século quatorze. Adotaram o nome de cristãos caldeus. A Igreja persa aceitou claramente a cristologia nestoriana. Atingiu expressão culminante no décimo terceiro século, quando dispunha de vinte e cinco arcebispos e cerca de duzentos bispos. Nos séculos doze e treze, formou-se a Igreja Nestoriana Unida e, atualmente, seus membros são conhecidos como Caldeus Uniatos. Na Índia, são conhecidos como cristãos de São Tomé. Hoje, esse movimento está em declínio.

Pelágio (aprox. 360-420)


Teólogo britânico, teve uma vida piedosa e exemplar. Baseado exatamente nessa questão, desenvolveu conceitos sobre a hamartiologia (doutrina que estuda o pecado). Sofreu resistência e, finalmente, foi excluído por diversos sínodos (Mileve e Catargo), sendo, ainda, condenado no Concílio de Éfeso, em 431 d.C.
Seus ensinos afirmavam que o homem poderia viver isento do pecado. Que o homem fora criado a imagem de Deus e, apesar da queda, essa imagem é real e viva. Do contrário, o homem não seria aquele homem criado por Deus. No pelagianismo a morte é uma companheira do homem, querendo dizer que, pecando ou não, Adão finalmente morreria, ainda que não pecasse. O ideal do homem é viver obedecendo.
O pecado original é uma impossibilidade, pois o pecado depende de uma ação voluntária do pecador. Afirma ainda que, por uma vida digna, os homens podem atingir o céu, mesmo desconhecendo o evangelho. Todos serão julgados segundo o que conheciam e o que praticavam. O livre-arbítrio era enfatizado em todas as suas afirmações, excluindo a eleição. Um século depois, desenvolveu-se o semipelagianismo, que amortecia alguns ensinos extravagantes de Pelágio.

Eutíquio (aprox. 410-470)


Viveu em um mosteiro fora de Constantinopla durante a primeira metade do quinto século. Discípulo de Cirilo de Alexandria, teve grande influência e chefiava mosteiros na Igreja oriental. Oponente do nestorianismo, afirmava que, por ocasião da encarnação, a natureza humana de Cristo foi totalmente absorvida pela natureza divina.
Era de opinião de que os atributos humanos em Cristo haviam sido assimilados pelo divino, pelo que seu corpo não seria consubstancial como o nosso, que Cristo não seria humano no sentido restrito da palavra.
Esse extremo doutrinário contou com o apoio temporário do chamado Sínodo dos Ladrões (em 449 d.C.). Essa decisão foi anulada mais tarde pelo Concílio de Calcedônia, em 451 depois de Cristo.
O Sínodo dos Ladrões recebeu esse nome porque seus participantes roubavam características da doutrina cristocêntrica. Por esse motivo, Eutíquio foi afastado de suas atividades eclesiásticas. Mas a Igreja egípcia continuou apoiando a doutrina de Eutíquio e manteve seus ensinos por algum tempo. Então, o eutiquianismo surge novamente no movimento monofisista.



Lições da Idade Média para a Igreja atual


A Igreja Medieval em grave necessidade de reforma

Por Solano Portela
Presbítero da Igreja Presbiteriana do Brasil em Santo Amaro (São Paulo, SP) e mestre pelo Biblical Theological Seminary (EUA)

Encontramos a Igreja Católica, no ápice da Idade Média (entre os séculos 13 e 15), com a maioria de suas práticas litúrgicas (incorporadas do paganismo) já institucionalizada em sua estrutura eclesiástica. O cenário, em verdade, está sendo preparado pelo Senhor da história para a reforma do século 15. A religião foi transformada de uma devoção consciente a Deus, baseada no que conhecemos de Deus pelas Escrituras e exercitada pelas diretrizes da sua Palavra, a um misticismo subjetivo, baseado nas tradições humanas, exercitado em práticas obscuras.
A Igreja, que deveria aproximar as pessoas cada vez mais de Deus e de sua Palavra, na prática, afasta os fiéis da religião verdadeira. Os rituais e a liturgia são realizados em uma língua desconhecida (o latim). Os seguidores são sujeitos a uma hierarquia estranha à Bíblia, na qual os administradores maiores se preocupavam mais com o jogo político do que com a situação espiritual dos fiéis. Aqueles que se dedicavam mais ao estudo da Palavra, em vez de estarem próximos dos fiéis, conscientes de suas lutas, necessidades e pecados, isolavam-se em mosteiros. Novas estruturas monásticas são formadas e sua influência se multiplica. Os poucos escritos refletem um misticismo que enaltece a Trindade, mas, ao mesmo tempo, apresentam uma ênfase mística que os distanciam da realidade.
Outras cabeças pensantes da Igreja, em vez de procurarem um retorno à teologia das Escrituras, embarcam num intelectualismo que pretende explicar, de forma palatável à razão humana, os mistérios de Deus — esses também distanciam a Igreja e sua hierarquia de sua missão e daqueles que a seguem em busca espiritual sincera ou por conveniência. Certamente, fica cada vez mais evidente que o caminho da reforma está sendo preparado por Deus. A Igreja está deteriorada em seu íntimo — os problemas aparecem. O remanescente fiel ficará mais evidente e desabrochará no tempo apontado por Deus.
Estudando a situação da Igreja nesse período, identificamos três erros dignos de destaque e que servem de alerta para os nossos dias. Vejamos:

1) O perigo do deslumbramento com o mundo


A Igreja já vinha sendo caracterizada pela sede de poder e por seu envolvimento com o mundo político. Na era medieval, os exemplos de envolvimento intenso com o poder político se multiplicaram.
No ápice do poder da Igreja medieval, o papa que deteve maior poder foi Inocêncio III (1198-1216): controlava tanto a Igreja Católica como o império. Humilhou o rei Filipe Augusto, da França, interditando todo o país, forçando-o a receber de volta sua esposa divorciada. Depois, humilhou o rei João, da Inglaterra, numa disputa sobre a indicação do arcebispo de Canterbury. Mais uma vez, interditou um país e convidou o rei Filipe, da França, a invadir a Inglaterra se o rei João se recusasse a aceitar os seus termos. Mais ou menos na mesma época, interferiu na Germânia (atual Alemanha), definindo a sucessão imperial naquele país, utilizando as tropas francesas como forma de pressão.
Em 1215, Inocêncio III convocou o Quarto Concílio Laterano (não confundir com Luterano), no qual algumas doutrinas estranhas à Palavra de Deus foram formalizadas, como, por exemplo, a obrigação de uma confissão auricular anual, a doutrina da transubstanciação (que afirma que o pão e o vinho da comunhão não somente simbolizam, mas, também, milagrosamente, transformam-se no corpo e no sangue de Cristo) e a terminologia do sacrifício da missa (uma vez que o corpo de Cristo era repetidamente sacrificado a cada liturgia).
Esse é apenas um exemplo de como a liderança maior da Igreja demonstrou mais interesse pelo poder e pelo envolvimento político do que pela saúde espiritual dos fiéis. Pior ainda. Quando esses líderes se voltavam a questões religiosas, seu único objetivo era promover a incorporação de práticas estranhas na liturgia da Igreja — feriam ainda mais a ortodoxia já combalida. A Igreja ia se desenvolvendo com uma língua estranha, distanciada do povo, e com práticas cada vez mais pagãs em sua liturgia.

A lição para a Igreja atual

A aceitação social e a proximidade do poder têm sido constantes inimigos da pureza doutrinária que deve marcar a Igreja verdadeira. Essa é uma característica não só da Igreja medieval, mas, também, dos nossos dias. A ânsia por aceitação vem, muitas vezes, à custa de princípios e da nossa identidade.
Como cristãos, perdemos, com frequência, grandes oportunidades de marcar presença, pelo nosso testemunho, como sal da terra (Mt 5.13), mas capitulamos perante as pressões do poder. Muitos dos nossos políticos, chamados “evangélicos”, têm tido um comportamento reprovável e posturas éticas que envergonham e trazem condenação até dos descrentes. Em um mundo cheio de maldade, a Palavra de Deus nos aponta à manutenção dos padrões de justiça de Deu: “Não te deixes vencer do mal, mas vence o mal com o bem” (Rm 12.21).
Em adição, devemos estar alerta para não trazermos práticas estranhas à Palavra de Deus à nossa liturgia. Por isso, o apóstolo Paulo nos adverte, em 2Coríntios 11.3: “Mas temo que, assim como a serpente enganou a Eva com a sua astúcia, assim também sejam de alguma sorte corrompidos os vossos entendimentos, e se apartem da simplicidade que há em Cristo”.

2) O perigo do isolamento


Apesar de os mosteiros e conventos terem surgidos entre os séculos terceiro e sexto da Era Cristã, foi na Idade Média que atingiram o seu auge, com o desenvolvimento de várias ordens monásticas. A ordem dos agostinianos foi fundada entre 1233 e 1244. Os beneditinos, trazendo uma tradição do terceiro século, foram reformados com o trabalho de Bernardo de Clairvaux (1090-1153). Os dominicanos foram formalmente estabelecidos por uma bula papal de 1216 e se organizaram definitivamente em torno de 1221. Os carmelitas, constituídos de peregrinos à terra santa, juntaram-se no monte Carmelo (daí o nome), para viver “a vida do profeta Elias”, em 1191, aproximadamente. Os franciscanos se organizaram pelo trabalho de Francisco de Assis, em 1223, desenvolvendo-se em vários ramos independentes, como o dos capuchinhos, por exemplo. E assim foi, nesse período, com várias outras ordens de menor importância. Praticamente, a única ordem monástica que não surgiu nesse período foi a dos jesuítas, formada em 1540 — na onda da Contra-Reforma.
Mas, qual seria o problema com o monasticismo?
Poderíamos dizer que os mais devotos e estudiosos da Palavra, possivelmente desencantados com o estado da Igreja e seu envolvimento com os regentes temporais e com a política, procuraram isolamento. Essa medida, aparentemente correta, fez que esse tipo de liderança deixasse de interagir com os fiéis. Além de privar os seguidores de um direcionamento maior, o isolamento fez que perdessem o contato com a realidade e com os problemas do dia a dia.
A vida no mosteiro não somente era artificial, mas, também, representava um tipo de cristianismo estranho às Escrituras. O asceticismo, ou seja, a rejeição de tudo que é material, é uma identificação errada do que é o verdadeiro mal (Cl 2.21). O pecado jaz no íntimo das pessoas (Sl 51.5) e não é a intensa meditação ou o isolamento que irá purificar o nosso ser. Tampouco, será a vida espartana, as penitências ou os sacrifícios inúteis, os quais podem ter até “aparência de piedade” (2Tm 3.5), mas não podem expiar o nosso pecado. O lado irônico do isolamento e do monasticismo é que, dando a aparência de uma aproximação de Cristo, contribuiu para o estabelecimento de uma religião humana, de salvação pelas obras, pela privação, pelo sofrimento — uma religião que se fechou, tornando-se um fim em si mesma.

A lição para a igreja atual

Essa tendência de isolamento está sempre presente no campo cristão. É saudável estarmos sempre juntos, em ambiente de igreja, mas, às vezes, levamos isso ao extremo. Desaprendemos a nos comunicar com o mundo. Esquecemos nossa missão. Passamos a falar com “jargões evangélicos” — palavras que soam estranhas ou desconhecidas àqueles a quem deveríamos estar comunicando as boas novas da salvação. Nossa preocupação é muito maior com encontros, acampamentos, do que na organização de uma ação eficaz de evangelização. Jesus disse que não pedia ao Pai que fôssemos tirados deste mundo (Jo 17.15). Aqui fomos colocados para interagir saudavelmente com a sociedade, transformando-a, reformando-a, purificando-a, sendo verdadeiramente “luz do mundo” (Mt 5.14). Aprendamos com essa era obscura da Igreja, na qual o isolamento dos que eram mais fiéis terminou por descaracterizar de vez a sua doutrina e mensagem.

3) O perigo dos extremos


Foi na Idade Média, em paralelo ao isolamento do monasticismo, que vários intelectuais, no seio da Igreja, deslancham aquilo que ficou conhecido como “escolasticismo”. Embora o termo seja difícil de definir, podemos considerá-lo como uma referência ao período, na Idade Média, em que surgiram inúmeros escritos que apelavam consideravelmente para a razão humana, cujo objetivo era estabelecer e provar as bases da religião.
Representavam uma tentativa de harmonizar filosofia com teologia, procurando demonstrações racionais de verdades teológicas. Nomes como Anselmo (1033-1109) e Abelardo (1079-1142) são considerados como cofundadores do movimento. Pedro Lombardo (+/- 1164) foi também um representante importante e Tomás de Aquino (1227-1274), o seu expoente máximo — com o seu tratado Summa Theologica. João Duns Scotus (1226-1308) e Guilherme de Ockam (1280-1349) são também escritores importantes desse período.
Contemporâneos de uma Igreja cambaleante em sua ortodoxia e prática — deslumbrada com o poder e o mundanismo, os escolásticos procuravam restaurar o cerne doutrinário da instituição. Erraram em depender ao extremo do racionalismo; em desconhecer a profundidade e a gravidade do pecado que afeta a capacidade de raciocinar corretamente sobre as coisas espirituais (Rm 1.22). Na realidade, deixaram de lado o ensinamento bíblico da depravação total das pessoas. Achavam que a fé era racionalmente explicável, esquecendo-se de que aprouve a Deus salvar a humanidade pela “loucura” da pregação (1Co 1.21). Apesar de os escolásticos, às vezes, confrontarem o poder temporal dos papas, serviram também para sistematizar muitas doutrinas estranhas às Escrituras, como relíquias, culto às imagens, purgatório, o sistema hierárquico e a estrutura sacramental de salvação pelas obras. Inúmeras páginas foram escritas com justificativas racionais para a utilização dessas práticas. Os reformadores do século 16 encontraram, em função dos escolásticos, ampla documentação dos desvios doutrinários que eficazmente combateram.
Em oposição radical ao escolasticismo, temos, na Idade Média, o misticismo, que é um termo vago que cobre amplos pontos de vista e abordagens sobre a prática religiosa. Em muitas situações, o misticismo não pode ser dissociado com muita clareza da prática correta da religião. Por outro lado, várias manifestações do misticismo são radicais, extremas e bastante distanciadas da ortodoxia verdadeira.
Uma definição genérica de misticismo seria: “Qualquer postura, coisa ou situação que nos leva ao contato com a realidade existente além dos cinco sentidos”. De uma forma ou de outra, o misticismo sempre esteve presente na Igreja. Na Igreja primitiva, manifestou-se com intensidade nos montanistas. Nos nossos dias, encontra grande expressão em muitas igrejas evangélicas, independentemente das barreiras denominacionais.
Na Idade Média, situado no outro extremo do escolasticismo, no meio dessa Igreja conturbada, temos o desenvolvimento do misticismo no isolamento monástico. Como se procurassem um afastamento da abordagem racionalista, muitos passaram a escrever obras puramente devocionais. Refletindo um desejo de se elevar acima das agruras deste mundo, almejavam uma aproximação imediata com a pessoa de Deus. Objetivavam atingir a certeza da salvação e chegar à verdade não pela dedução lógica, mas pela experiência. Muitos podem ter sido crentes sinceros, enfatizando o amor e a aproximação com Deus.
Os místicos nunca foram considerados hereges e a Igreja Medieval, na realidade, os encorajou, como um contraponto ao escolasticismo. Em função do seu caráter subjetivo, o misticismo enfatizou, consideravelmente, além de uma postura pessoal de devoção, a questão dos sonhos, das visões e de outras formas de revelação que seriam utilizadas por Deus em paralelo às Escrituras. Estiveram também presentes, posteriormente, no decorrer da Reforma, quando Lutero confrontou uma comunidade que ficou conhecida como “Os profetas de Zwickau”, indicando que o Espírito Santo falava pela objetividade das Escrituras.
Um dos grandes exemplos desse período, um místico lido e prezado tanto por católicos como por protestantes, foi Tomás Kempis (1380-1471), nascido na Alemanha e criado na Holanda, que ocupou toda a sua vida em três atividades: copiar a Bíblia (lembrem-se de que, naquela época, não havia imprensa), meditação devocional e escrever vários livros. Ficou, entretanto, conhecido por apenas um desses, intitulado A imitação de Cristo. Escrito originalmente em latim, em quatro volumes, foi traduzido, depois, para várias línguas. Existem mais de 2 mil edições conhecidas deste livro que até o teólogo Charles Hodge classificou como “a pérola do misticismo germânico-holandês”. Outro teólogo protestante escreveu: “O que torna este livro aceitável a todos os cristãos é a ênfase suprema colocada sobre Cristo e a possibilidade de comunhão imediata com Ele e com Deus”.
Entretanto, ao lado dos elogios por seu caráter devocional e pela exaltação que faz da pessoa de Cristo, é possível perceber que foi escrito por um católico romano. No livro, encontramos referências à adoração e ao conceito católico romano dos santos. À guisa de exemplo, no Livro 1, capítulo 18, lemos sobre “os santos que possuíam a luz da perfeição e da religião verdadeira”. No capítulo 19, lemos que, em certas ocasiões, “a intercessão dos santos deve ser fervorosamente implorada”. Existe, também, a aceitação da doutrina do purgatório. No Livro 1, capítulo 21, lemos que deveríamos viver uma vida de trabalho e sofrimento “se considerássemos em nossos corações as dores futuras do inferno ou do purgatório”.
Na melhor das hipóteses, o livro é contraditório. Em um trecho a obra, indica o mérito das obras. Em seu Livro 2, capítulo 12, afirma: “Nosso mérito e progresso consistem não nos muitos prazeres, mas no suportar de muitas aflições e sofrimentos”. Em outro trecho, fala da inutilidade das obras. No Livro 3, capítulo 4, declara: “Considere seus pecados com desprazer e tristeza, e nunca pense de você mesmo como sendo alguém, por causa de suas boas obras”. Em adição aos aspectos romanos, a ênfase do livro é colocada em uma vida de isolamento como sendo o ideal do cristão, em vez do envolvimento sadio com a criação em uma vida de testemunho e proclamação das verdades divinas.

A lição para a igreja atual

A religião verdadeira alimenta o ser humano em sua totalidade. Quando a prática do cristianismo não está corrompida, há satisfação tanto para o corpo como para a alma. A ideia de que existe mérito no sofrimento ou no isolamento não é bíblica, mas provém de um conceito de que, de uma forma ou de outra, operamos a nossa própria salvação. O misticismo existe desenfreado em nossos dias, não como uma característica saudável da Igreja, mas, sim, como um problema em seu seio. De certa forma, o misticismo ocorre como uma reação à ortodoxia morta, ou a um intelectualismo estéril, como aconteceu na Idade Média. Entretanto, no cômputo final, apesar de parecer uma ênfase sobre ações e posturas piedosas, ou sobre uma vida de devoção intensa e real, o misticismo desvia os nossos olhos de Cristo; concentra a atenção nos nossos méritos, nas coisas que fazemos ou que deixamos de fazer; nos objetos aos quais atribuímos valor espiritual; ou nas formas de comunicação com Deus estranhas à Palavra e à suficiência das Escrituras.

Considerações finais


Podemos aprender muito com a situação da Igreja na Idade Média. Ela foi progressivamente se afastando de Cristo, não somente pelo mundanismo crescente e pela incorporação de práticas pagãs, mas, também, por meio de um isolamento intenso e igualmente contraditório à sua missão.
Como anda a nossa igreja?
Como caminha a nossa religiosidade?
Como se encontra a nossa vida devocional?
Estamos nos achegando a Deus, em devoção sincera, por meio de Cristo e pelo poder do Espírito Santo — desejosos de fortalecer o nosso testemunho em um mundo hostil? Ou estamos fabricando um tipo peculiar de religião que atende os nossos anseios místicos ou a nossa sede intelectual, mas que nos afasta cada vez mais dos caminhos que deveríamos percorrer?
Meditemos no que Deus quer de nós, como expressa Miqueias 6.6-8, verificando que a prática da justiça e o amor à benevolência não são compatíveis com uma vida estéril ou distanciada do mundo em que Deus nos colocou.

“A aceitação social e a proximidade do poder têm sido constantes inimigos da pureza doutrinária que deve marcar a Igreja verdadeira”

“Estamos no mundo para interagir saudavelmente com a sociedade, transformando-a, reformando-a, purificando-a, sendo verdadeiramente ‘luz do mundo’”

“A ideia de que existe mérito no sofrimento ou no isolamento não é bíblica, antes, provém do conceito de que podemos operar a nossa própria salvação”

EM BREVE A SEGUNDA PARTE.
Deus vos abençoe e Crescer na Graça e no Conhecimento.